HAMILTON DE HOLANDA

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Uma noite pra Jacob

O público se amontoava na estreita calçada da Carioca para conseguir entrar na Casa do Choro. Alguns já vislumbravam a possibilidade de acabar ficando do lado de fora. Minutos depois que as portas foram abertas, o Auditório Radamés Gnattali lotou e muitos subiram os andares para poder, ao menos, assistir a transmissão pelo telão do restaurante. O evento de tamanha procura era a entrega oficial do bandolim de 10 cordas de Jacob do Bandolim ao Hamilton de Holanda, que aconteceu na última terça feira, 14 de fevereiro.

O espetáculo se deu no dia em que Jacob completaria 99 anos e foi o marco para a abertura de uma série de celebrações pelo centenário do bandolinista. O evento- que acabou tendo duas sessões devido a grande demanda do público- contou não só com a entrega do instrumento, mas também com apresentações de diversos músicos. Para a felicidade do público fãs de choro, mais de 10 bandolinistas subiram ao palco, cada um apresentando suas singularidades, ora acompanhados de Luciana Rabello, Rogério Caetano, Maurício Carrilho e Marcus Thadeu, ora sozinhos.

A poderosa força comunicativa da musicalidade de Jacob se fez presente toda a noite. Entre um bandolim e outro, o público permanecia atento, decodificando os sons presentes na memória coletiva. Estava claro a potência produzida pelo músico. A noite contou com momentos nostálgicos, com personalidades dos tempos de Jacob e com a geração que o escuta através do computador. Hamilton recebeu o instrumento e leu uma carta de agradecimento que abarçava a sua relação com a música e com o bandolinista, deixando clara a importância fundamental daquele gigante para a música brasileira.

O bandolim que acabava de ser entregue oficialmente para Hamilton, para a surpresa de muitos, tem 10 cordas. Tal fato era desconhecido. Não há fotos ou registros sabido pelos músicos. Sobre isso, Hamilton comenta “em 2015 veio a descoberta, pelo menos pra mim, que o nosso mestre Jacob também teve o bandolim de 10 cordas. Era o elo que faltava para ter certeza de que esse instrumento é muito especial e já fazia parte do inconsciente coletivo dos bandolinistas.”

É comum instrumentos famosos ou que pertenceram a grandes músicos serem expostos em museus e galerias ou ficarem guardados em grandes coleções. A Casa do Choro resolveu fazer diferente. Ao receberem alguns dos instrumentos que pertenceram a Jacob e que estavam sob a posse do Instituto Jacob do Bandolim, decidiram passá-los à grandes músicos, para que eles pudessem continuar soando por aí. “Resolvemos que não iríamos deixar o instrumento exposto numa redoma, nem íamos vendê-lo. Escolhemos curadores para esses instrumentos. A gente entende que ele vai ficar o tempo que o Hamilton achar que deve ficar com ele e depois ele vai, no mesmo movimento, fazer esse instrumento circular entre os mais novos, pensando naquele que está se destacando, se dedicando com mais afinco ao instrumento”, disse Luciana Rabello, presidente da Casa.

Carta agradecimento: Pela guarda do Bandolim de 10 cordas que foi de Jacob

Comecei a tocar bandolim aos 5 anos de idade ou pelo menos a brincar porque ele sempre foi o meu brinquedo mais legal. Antes eu tocava escaleta, cornetinha de plástico e um pouquinho de cavaquinho. Confesso que não me lembro muito bem, só por algumas gravações em fita cassete da época que o meu pai, José Américo, teve a boa ideia de fazer com um gravador da Polyvox. Não me esqueço das viagens que fazíamos de carro no banco de trás com o aparelho de som entre mim e meu irmão César, que já tocava cavaquinho e passou muito rápido pro 7 cordas, tinha 10 pra 11 anos. Ouvíamos muito choro de Pixinguinha, Jacob, Altamiro Carrilho, Época de Ouro, Joel Nascimento, Déo Rian, Galo preto, Camerata Carioca, Os carioquinhas, Nó em pingo D’água, Armandinho, Waldir Azevedo, Radamés Gnatalli, Raphael Rabello. Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes, Elis Regina, Fundo de Quintal, João Nogueira, Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Gonzaga, Sivuca e mais um monte de coisa boa. Muito  Frevo também, já que meus pais são pernambucanos. Lembro que minha mãe, D. Teba, pedia pra gente tocar suas músicas preferidas: Naquele tempo e Vibrações. Ela não pedia sempre porque sabia que tinha dia que a gente só tocava o que queria, ficava de marrinha.

No ano de 1984, com 8 anos, participei de um show em homenagem a Jacob que marcou definitivamente a influência de sua música em minha vida. Nesta oportunidade, conheci o conjunto Época de Ouro. Toquei com Dino, Jorginho, Ronaldo do Bandolim, com Armandinho, Déo Rian, entre outros nomes. A música de Jacob foi a trilha de um momento muito emocionante em minha vida. Tocava Jacob em todas as rodas que eu ia no Clube do Choro de Brasília. Passei uma infância feliz, com amigos, família, brincadeiras e muita música.

Aos 13 anos, aprendi a tocar violão com os acordes do estilo da Bossa nova e do Choro, ao mesmo tempo em que estudava harmonia pela metodologia da música clássica como uma outra matéria na Escola de Música de Brasília, isso depois de ter estudado uns 3 / 4 anos de violino. Mas o violão abriu um portal na minha mente e na emoção pelas possibilidades de montagem de acordes. Passei a visualizar e ter um pouco mais de controle do que podemos chamar de arquitetura da música. A harmonia é uma parte fundamental da música, através dela passei a entender e curtir vários gêneros e artistas de diferentes escolas : Hermeto Pascoal, Baden Powell, Milton Nascimento; a música clássica de maneira geral, compositores como Bach, Villa-Lobos, Mozart, entre outros. Com o tempo, fui tentando passar o que aprendia no violão pro bandolim. Daí, descobri a polifonia : eu podia ver, ouvir e tocar a melodia, a harmonia e o ritmo no meu bandolinzinho. Nesse mesmo período, conheci um bandolinista que foi amigo de Jacob, o Cincinato. Ele era conhecido por sua maneira peculiar de tocar o bandolim : tocava armado. Mas não era arma de fogo, sua arma eram os acordes, os dedos estavam sempre com um acorde armado. Numa finalização de frase, sempre aparecia um acorde, ele gostava de harmonizar as melodias. Cheguei a tirar algumas músicas dele, gosto do estilo.

Em 1998, gravei a música Inesquecível, que Paulinho da Viola fez pro mestre Jacob. É a minha primeira gravação apresentando o bandolim polifônico, solo. A partir daí, fui criando arranjos com essa cara. Com o tempo, fui sentindo a necessidade de ter mais notas no instrumento, chegava uma hora que me faltava uma notinha ou outra. Passei a pensar na possibilidade de acrescentar cordas no bandolim. Já sabia que outros músicos tinham feito instrumentos com mais cordas do que o usual. O próprio violão de 7 cordas, instrumento tão importante na história da Música Brasileira, era meu companheiro através das mãos de meu irmão. Eu já tinha ouvido falar de Mário Álvares,  até tocava Teu Beijo, que é uma música dele gravada por Jacob. Foi um chorão que viveu entre viveu na virada dos séculos 19 e 20. Ele tocava um cavaquinho de 5 cordas e um tipo de bandolim com 14 cordas. Outro acontecimento foi marcante: fui passar o carnaval em Salvador, na casa de Armandinho e vi a guitarra baiana, que é um bandolim elétrico com cordas simples, tendo uma corda a mais, total de 5. Ele também tinha um instrumento bem diferente no estúdio, um bandolim elétrico com 5 pares de corda.

No começo do ano 2000, liguei pro luthier Vergílio Lima, de Sabará, Minas Gerais, e fiz uma encomenda. Pedi que fizesse um bandolim com 10 cordas. Me lembro de duas coisas que disse a ele : que o instrumento fosse feito com madeiras baratas, já que era um protótipo e, caso não desse certo, o prejuízo não seria grande. E  que pegasse as medidas do bandolim de 8 dividisse por 4 e multiplicasse por 5, fazendo as compensações que ele achasse necessárias, com sua experiência de anos na luteria. Alguns meses depois, especificamente em outubro de 2000, chegou o bandolim. O protótipo deu certo. Passei a gravar meus discos com ele. No início, parecia um bandolim de 8 com um dózão que eu tocava de vez em quando. Depois de alguns meses, passei a usar as 10 cordas na totalidade. A primeira gravação de um arranjo solo no 10 foi em 2001, a música Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro. Em 2002, passei um ano morando sozinho em Paris, o que me deu tempo e sossego pra tocar o bandolim de 10 o dia inteiro, compondo, criando arranjos, descobrindo novos caminhos e repetindo algumas coisas à exaustão. Nos anos seguintes, gravei alguns discos solo que mostram o bandolim de 10 polifônico : 01 byte 10 cordas (Ao vivo no Rio), Esperança (Ao Vivo na Europa), Samba do Avião e Íntimo. Alguns em parceria, que mostram a possibilidade do instrumento como acompanhante também : com o bandolinista americano Mike Marshall, com Joel Nascimento, com a cantora Zélia Duncan e com o cantor Diogo Nogueira. Além do projeto Caprichos, que é uma proposta de repertório brasileiro para o Bandolim 10 cordas com 24 músicas de estilos e diferentes técnicas.

Desde 2014, praticamente todos os luthiers que fazem bandolim no Brasil passaram a fazer o de 10 cordas. Alguns estrangeiros, também. E novos bandolinistas começaram a se destacar tocando este instrumento : Dudu Maia, Luis Barcelos, Rafael Marques, Fábio Peron, Rafael Ferrari, Carrapicho, Vitor Angeleas, Tiago Tunes, Gabriel Rosário, Pedro Franco, Jorge Cardoso, Fernando Dalcin, Ian Coury, entre outros feras.

Em 2015, veio a descoberta, pelo menos pra mim, que o nosso mestre Jacob também teve um bandolim de 10 cordas. Era o elo que faltava pra ter certeza de que este instrumento é muito especial e já fazia parte do inconsciente coletivo dos bandolinistas. Temos dentro dele o bandolim de 8 e ainda outras possibilidades harmônicas e de timbre que são muito valiosas. Saber que Jacob também buscou essa sonoridade é um alento pra que os bandolinistas de 10 continuem a desenvolver, cada um a sua maneira, uma linguagem inspirada na musicalidade brasileira. Mostrar que o instrumento é o meio pelo qual podemos expressar nossa ancestralidade, nossos sentimentos e nossa capacidade de ver o futuro.

Eu só tenho a agradecer por estar com o bandolim que pertenceu a esse músico sem igual. Me sinto muito honrado, muito emocionado. Muito obrigado ao Instituto Jacob do Bandolim, seu presidente Déo Rian, o vice, Sérgio Prata e toda a diretoria, conselheiros e colaboradores que tocam em frente a difícil e bonita tarefa de divulgar e valorizar o legado deixado por Jacob. Muito obrigado também à Casa do Choro, nas pessoas de Luciana Rabello e Maurício Carrilho, além de todos que contribuem diariamente. O trabalho que vocês fazem é motivo de muito orgulho. Muito obrigado ao luthier Tércio Ribeiro, do qual tenho 2 instrumentos e foi o responsável pela restauração do bandolim de 10 do Jacob. Agradeço todos os músicos com quem tive a chance de tocar, gravar e aprender. Graças a Deus, são muitos. Eu sou tudo que aprendi e aprendo com vocês. Um agradecimento especial ao meu parceiro de trabalho do dia-a-dia nestes últimos 12 anos, Marcos Portinari, pelas horas e neurônios dedicados e toda nossa equipe por fazer acontecer a minha carreira e a alegria no trabalho. Aos meus fãs que dão sentido ao resultado final de todo esse trabalho, muito obrigado. E à minha família, que, chova ou faça sol, está comigo pra elogiar e criticar tudo que faço. Rafaela, Gabriel, Bruno, Cinara, Teba, Américo, César (e tem mais gente legal na família), amo vocês!

Música é trabalho, diversão e educação. Ela nos faz viajar pelo tempo, nos eleva a alma, além de nos dizer quem somos, de onde viemos e aonde podemos ir. A música faz o ser humano se sentir vivo e altivo. Sentimos a grandeza de nossa humanidade e nossa pequenez diante do universo.

Finalizo com um trecho da carta que Jacob escreveu para Radamés Gnattali falando sobre a Suíte Retratos, que ele compôs especialmente pro mestre do bandolim :

Antes de Retratos, eu vivia reclamando: ‘É preciso ensaiar.’ E a coisa ficava por aí, ensaios e mais ensaios.

Hoje minha cantilena é outra: ‘Mais do que ensaiar, é necessário estudar’. E estou estudando.”

Viva Jacob !

Prêmio Profissionais da Música promete edição de sucesso em 2017

Correio Brasiliense 09/02/17

A premiação já conta com recorde de inscritos em relação a edições anteriores e traz nomes de destaque para a capital federal

Natalia Voss/DivulgaçãoHamilton de Holanda é candidato à semifinal do PPM

Em abril, ocorre a 3ª edição do Prêmio Profissionais da Música (PPM). O evento acontecerá entre os dias 28, 29 e 30 de abril no Cota Mil Iate Club. Idealizado por Gustavo Ribeiro de Vasconcellos, o PPM também conta com workshops, talkshows, showcases, mostra de documentários musicais, rodada de negócios e exposição fotográfica para apreciação do público.

Após um total de 1309 inscritos, 385 foram convocados para a semifinal. Entre os candidatos ao prêmio, estão nomes de reconhecimento da música brasileira, como Hamilton de Holanda e Clarice Falcão, além de vários outros nomes nacionais e internacionais. Os semifinalistas foram indicados em 53 categorias subdivididas nas modalidades criação, produção e convergência.

Para a próxima, e última fase, o público deverá votar nos candidatos preferidos através do site www.ppm.art.br,  entre os dias 9 e 19 de fevereiro. Por fim, os grandes vencedores do prêmio serão definidos pelo voto decisivo do júri.

O Distrito Federal participa em peso do prêmio, com 19 semifinalistas em criação, 9 em produção e 18 em convergência. Prova de que Brasília tem diversidade e qualidade em seu cenário musical. “A capital marca presença em categorias como hip-hop, produtor musical, blocos de carnaval e projeto especial educativo, por exemplo”, enumera Gustavo, idealizador do PPM.

Com edições passadas de êxito, que contaram com participações especiais de grandes nomes da música nacional, como Sandra de Sá e Roberto Menescal. A edição deste ano começou batendo recordes, com quase o dobro de inscrições de 2016 e promete ser inesquecível.

Alegria no Circo: Hamilton de Holanda e A Magnífica fazem segunda edição do Bailinho do Almeidinha

Alegria, alegria! Hamilton de Holanda e A Magnífica abrem o pré-carnaval infantil do Circo Voador, dia 5 de fevereiro, com o Bailinho de Carnaval do Almeidinha. Será uma tarde para as crianças caírem na folia ao lado dos adultos.

Aos 9 anos, Hamilton já tocava bonito e o instrumento ia-lhe, literalmente, no queixo. Era um garoto tocando as músicas de gente grande. Hoje, pai de duas crianças e com o seu bandolim com a carga de anos de experiência e estudos, Hamilton resolveu aventurar-se no universo infantil, seja na composição de temas inspirados na garotada, em workshops e oficinas dedicadas à educação musical, ou mesmo nas rodas familiares com o filho Gabriel e o sobrinho Bento.

No ano passado, o músico e a Magnífica celebraram o dia das crianças com o lançamento do primeiro disco infantil do bandolinista e a estreia do Bailinho do Almeidinha no Circo Voador. O sucesso foi tão grande que haverá uma segunda edição, desta vez com gostinho de carnaval.

Em 2015, durante uma turnê em Cuiabá, o bandolinista embarcou numa viagem musical com a Orquestra do Estado de Mato Grosso, regida pelo maestro Leandro Carvalho. O resultado foi “Alegria”, o 31º disco de carreira de Hamilton, que foi lançado em uma edição especial para crianças do Baile do Almeidinha, dia 12 de outubro, no Circo Voador. Alegria no Circo, como foi apelidado o evento, reuniu oficinas e música em uma tarde pra lá de divertida na lona da lapa.

Neste ano, a programação começa às 16h, com oficinas de percussão com o Quizombinha; acrobacia aérea, capoeira, roda de côco e brinquedos populares. Logo depois, Hamilton de Holanda (bandolim 10), Marcelo Caldi (acordeom) Rafael dos Anjos (violão 7 cordas), Guto Wirtti (contrabaixo acústico), Thiago da Serrinha (percussão), Xande de Figueiredo (bateria), Eduardo Neves (sax e flauta), Aquiles Moraes (trompete) sobem ao palco do Circo Voador.

O repertório do show transporta adultos e crianças para as aventuras do Sítio do Pica-pau Amarelo, com o tema clássico de Gilberto Gil, para as missões resgate da princesa Peach, de Mario Bros, e ainda para um tour por Bedrock, cidade natal de Fred e Barney, ao som de Hoyt Curtin. “Asa branca”, de Gonzagão, e a inédita “Melancia” também estão entre as escolhidas para animar o Bailinho.

ERRATA – Crédito de Compositor Benedicto Lacerda

No disco “Esperança – Ao vivo na Europa”, a música Vou vivendo foi creditada como sendo apenas de Pixinguinha. O correto é Pixinguinha/Benedicto Lacerda.

No Projeto “Mundo de Pixinguinha”, a música Segura ele foi creditada como sendo apenas de Pixinguinha. O correto é Pixinguinha/Benedicto Lacerda.

A Brasilianos se desculpa por informação divulgada incompleta fruto de um inocente erro humano.