HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Arquivo do mês: agosto 2012


Texto sobre Choro, por Henrique Cazes

** Análise: Henrique Cazes
A evolução que ainda preserva o tradicional

Os elementos que se misturaram para o surgimento da música popular urbana, ao longo do século 19, foram basicamente os mesmos, em diferentes lugares. Danças vindas da Europa, especialmente a polca e a habanera, o sotaque musical de cada colonizador e as influências rítmicas trazidas da África. Se compararmos o choro, a beguine da Martinica, o danzon de Santiago de Cuba e o ragtime norte- americano, veremos que tudo veio da polca, mas salta aos olhos o fato de o choro ter atingido um grau muito mais elevado de elaboração. E por que isso teria acontecido?

Primeiramente, devemos creditar nossos pioneiros, músicos como Joaquim Callado, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga, dentre outros, que exerceram forte liderança, cada qual em um front do choro, estabelecendo um alto padrão decomposição que dura até hoje. Não foi à toa que músicos como Carlos Gomes e Villa-Lobos viram em Anacleto e Nazareth a expressão de nossa identidade musical.

A geração de Pixinguinha, Candinho e Bonfiglio de Oliveira deu forma definida ao choro, fazendo com que esse termo significasse também um gênero musical. E o mais interessante é que, mesmo depois de um estilista genial como Pixinguinha, o choro não parou de experimentar. Radamés Gnattali e Garoto trouxeram informações do jazz e do clássico. Severino Araújo traduziu a big band enquanto K-Ximbinho e Paulo Moura aprofundaram o namoro entre choro e jazz. A musicalidade chorística espalhou-se, levada pelas ondas do rádio e por meio de grandes solistas, dos quais ainda temos Zé Menezes e Altamiro Carrilho.

Nos momentos mais difíceis, após a morte de lideranças como Jacob de Bandolim (1969) e Pixinguinha (1973), o choro encontrou meios de reagir, atraindo novas gerações. A minha, que entrou na roda em meados da década de 1970, investiu na codificação e na transmissão organizada do conhecimento relativo ao assunto e o choro foi a escola.

Enquanto mais e mais jovens começam a tocar choro pelo Brasil, já temos alguns exemplos de bons intérpretes estrangeiros, como o bandolinista japonês Oh Akioka e a clarinetista israelense Anat Cohen. Na primeira década do século 21, pudemos observar o brilho de uma nova geração, capitaneada por Hamilton de Holanda e Yamandu Costa, virtuoses que procuram equilibrar tradição e experimentação. Fazendo um balanço global e ouvindo o repertório de uma roda de choro de hoje em dia, chego a conclusão de que nos desenvolvemos em um modelo evolutivo acumulativo. Cada nova proposta que chega não descarta alguma prática do passado. Às vezes, a grande novidade que um solista lança na roda é o balanço de uma polca amolecida do século 19.

Esse rico universo, em que cabem tradicionalismo e experimentação, amadorismo e profissionalismo, competição e solidariedade, improvisação e rigor formal, pulsa ao compasso da paixão: um dialeto musical vivo.

HENRIQUE CAZES É CAVAQUINISTA, COMPOSITOR E AUTOR DE CHORO – DO QUINTAL AO MUNICIPAL

Texto publicado pelo Estado de São Paulo 24 de março de 2011

Crítica Brasilianos 3, site Holandês.

http://musicabrasileira.org/

After the very well received Brasilianos 1 (in 2006) and Brasilianos 2 (2010), Hamilton de Holanda and his band show up with a third Brasilianos album. The quintet is the same as on the earlier releases (Daniel Santiago on guitar, André Vasconcellos on basses, Marco Bahia behind the drums and harmonica player Gabriel Grossi). By being so long together, these superb musicians complement each other in a perfect way.

Brasilianos 3 is in all ways the successor of Brasilianos 2. The concept is worked out a bit further on this latest edition. The music is based in choro, but with all his enlightening music experiences during many appearances, Hamilton is able to slide in other styles. It makes the music even more jazzy than on Brasilianos 2. The band members accompany Hamilton in a way that gives the leader more freedom to tell his story. In fact, this is a quintet every soloist can dream of. When they’re not with Hamilton, each member has his own busy work schedule gaining experience and knowledge that seems to come together in the Brasilianos Quintet. It’s what makes them unique. While listening, one might get the feeling that the musicians rely less on their virtuosity and pay more attention to the sentiment of the composition. With song titles as “Saudades de Brasilia” and “Saudades do Rio” (the two cities Hamilton de Holanda lived in), it may be clear that Hamilton puts an accent on feelings.

Again, all music is written by Hamilton de Holanda (five are co-written with guitarist Daniel Santiago). Highlights are difficult to define; all music sounds as great as we may expect after the two earlier releases. “Prece ao Santo Céu” stands out in its form. It has a certain tradition of chamber music. The repetitive drum pattern gives the tune a surprising change. Of course “Guerra e Paz, Pt. I” must be mentioned among the best moments of the CD. The presence of Milton Nascimento is breathtaking. His voice is unique and the very best for this song. It brings back memories of Milton’s earlier career, the master of the voices! The song is dedicated to Brazilian painter Candido Portinari. These particular (two) panels (War and Peace) can be seen in the buildings of the United Nations in New York. “Guerra e Paz, Pt. II” closes the album in a most beautiful way. Other songs of course feature the technical skill of the musicians. The way Hamilton and Gabriel Grossi play the theme of a song together is still an amazing tour the force (“Saudades do Rio”). The beautiful choro ballad “JK Proibido” refers to Juscelino Kubitschek, the former president who was banned by the military regime to enter Brazil’s capital, Brasília, the city that his and architect Oscar Niemeyer’s names are forever connected with.

With this wonderful Brasilianos 3 we can already start to hope for number four.

Kees Schoof

“O bandolim internacional de Hamilton de Holanda” – O Globo

O bandolim internacional de Hamilton de Holanda

Reconhecido como reinventor do instrumento, música parte para tentar reconstituir o elo entre choro e jazz que Pixinguinha ajudou a forjar

SILVIO ESSINGER
Publicado:
11/08/12 – 7h15

O músico carioca, criado em Brasília e assíduo dos festivais de jazz na Europa, prepara um baile no Circo Voador e um show para Pixinguinha em Ouro Preto

RIO РSeu nome foi dado em homenagem ao av̫ Hamilton. E desse mesmo av̫, ainda garoto, ele ganhou o presente que determinaria os rumos sua vida: um bandolim.
— Foi um presente maravilhoso, mas que me dá um trabalho danado — desabafa, meio que de farra, Hamilton de Holanda, bandolinista brasileiro que, aos 36 anos, com uma sólida carreira no Brasil e no exterior, se prepara para um dos grandes desafios de sua vida: levar a obra de Pixinguinha para o mundo.
No próximo dia 1º, na Mostra Internacional de Música (Mimo), na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto, ele dá o primeiro passo com um show-tributo ao compositor, feito em quarteto. Em seguida, parte para um disco de duetos com grandes nomes internacionais, como os pianistas Chick Corea, Stefano Bollani e Chucho Valdés. É uma forma de “encontrar esses caras e ver como eles tocam Pixinguinha”. Um filme e um livro de partituras fecham o pacote, a ser lançado ao longo de 2013.
A ideia surgiu em março, quando Hamilton conversava com a produtora Lu Araújo, do Mimo, em uma grande exposição sobre Pixinguinha que ela havia organizado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Brasília — cidade onde o bandolinista carioca viveu dos 11 meses até os 28 anos. Mas o projeto tomou impulso mesmo há algumas semanas, quando Hamilton estava em Perúgia, na Itália, fazendo seu dueto com Bollani. Eles ensaiavam um Pixinguinha na passagem de som quando Chick Corea chegou, sorrateiro e interessado, com sua câmera.
— Depois, o Chick veio falar conosco e me perguntou se o Pixinguinha tinha sido influenciado pelo Tom Jobim. Eu falei que não, que era o contrário, que o Pixinguinha era uma espécie de pai do estilo brasileiro de se fazer música — conta o músico, atração constante dos festivais de verão de jazz na Europa há mais de década.
Prática diária
Daí em diante, com a ajuda de Lu Araújo e de seu empresário, Marcos Portinari, o bandolinista começou a traçar seu projeto Pixinguinha. Que pretende jogar um pouco mais de luz sobre esse brasileiro criador de uma ponte fundamental entre o choro e o jazz.
— Se você ouvir lá atrás as composições do Ernesto Nazareth e do Scott Joplin, ou do Pixinguinha e de Louis Armstrong, parece que eles eram irmãos. Mas houve um momento em que o elo entre jazz e choro se rompeu — diz Hamilton. — Nesse disco com os músicos estrangeiros, a intenção é juntar alguns desses cacos.
Nascido em uma família de instrumentistas, desde cedo Hamilton trabalha para compor seus mosaicos. Nos anos 1980, ao entrar para a reserva, o pai do bandolinista, o militar e violonista José Américo, resolveu encaminhar os filhos para o choro. Todo dia cuidava para que Hamilton e o irmão, Fernando César, no violão, praticassem choros dos discos de Jacob do Bandolim, Pixinguinha e Joel Nascimento.
— Eu achava o máximo botar estrela, cruz ou X no caderno, pra mostrar que a gente já tinha ensaiado a música pelo menos uma vez. Adorava fazer aquela tabelinha! — anima-se.
Todo fim de ano, o pai dava de presente aos amigos fitas cassete com gravações dos filhos tocando os choros.
— É como estudo as músicas ainda hoje. Gravo milhões de vezes até chegar ao ponto — conta Hamilton.
Mesmo na adolescência, quando a rebeldia aflora, não deixou o choro. Melhor: acrescentou a ele o rock, que conheceu em discos do Led Zeppelin e tocando baixo com amigos da Quadra 103, onde morava. Mas quem identifica Jimmy Page ou Jimi Hendrix na sua pegada energética de bandolim se engana: ela vem da influência de Armandinho, d’A Cor do Som. Os dois são amigos desde que José Américo procurou o músico no hotel, em Brasília, para lhe mostrar o filho que conhecia todo o repertório dos chorões.
— Hamilton começou no choro, estudou o jazz e desenvolveu uma técnica só dele. Com seu trabalho, ele está ampliando as possibilidades do instrumento. É uma história que vem de Jacob, passa por mim e chega a ele — diz Armandinho, responsável por apresentar ao garoto o bandolim de dez cordas (o tradicional tem apenas oito), ao qual ele se dedicou com raro afinco.
— Senti necessidade de fazer umas coisas mais polifônicas, tocar duas melodias ao mesmo tempo, fazer acorde junto com melodia — explica Hamilton. — O bandolim de dez não é um piano, mas tem um pensamento pianístico. É um instrumento nascido de uma necessidade aqui do Brasil.
Por onde passa com seu dez cordas, Hamilton provoca assombro. Até mesmo em músicos experientes (e bem mais do que isso), como Egberto Gismonti, que o viu tocar solo pela primeira vez, algumas semanas atrás, em Ravena, na Itália, no mesmo festival em que se apresentava com o percussionista Naná Vasconcelos.
— Há muito tempo eu não ouço nada tão singular sendo feito num instrumento tão popular — diz Gismonti. — Eu já gostava muito do Hamilton como pessoa e como músico. Agora gosto dele também como inventor. Como ouvinte, diria que o Hamilton está fazendo, num instrumento solista de uma só voz, algo polirrítmico e polifônico. É lindo de ver que o bandolim deu um passo tão largo nas mãos dele.
O outro pilar da música instrumental de invenção do Brasil, Hermeto Pascoal (com quem Hamilton gravou um DVD ao vivo, a ser lançado) confirma a opinião:
— Pra mim, o Hamilton é o cara que conseguiu modernizar o bandolim sem que ele perdesse a sua essência. É um dos maiores músicos do mundo da nova geração!
Baile dia 31 no Circo Voador
Hoje, Hamilton tem certeza de que não escolheu o bandolim — foi escolhido por ele.
— É um instrumento difícil de tocar e de afinar. Você tem que usar os momentos de não afinação como ornamento. É um trabalho diário para encontrar um som mais bonito — diz o músico, que, além de praticar todo dia, ainda gasta um bom tempo depois dos shows ajustando seu bandolim.
Cada vez mais presente nos palcos principais dos festivais de jazz da Europa, Hamilton não quer descuidar, contudo, de sua presença no Brasil. E em especial no Rio , onde mora com a mulher e dois filhos.
Dia 31, ele promove, no Circo Voador, o Baile do Almeidinha. Em clima de gafieira, e acompanhado de Guto Wirtti (baixo), Eduardo Neves (sopros), Thiago da Serrinha (percussão), Rafael dos Anjos (violão) e Thiago Silva (bateria), Hamilton mergulha em forró, sambas, choros e xotes.
A cantora Zélia Duncan é uma das que conhecem bem esse lado festeiro do bandolinista. Em 2004, ele liderou a banda que a acompanhou no show “Eu me transformo em outras”, só de sambas e choros.
— Ele não é um purista. Ouve, é curioso com o que os outros fazem e se alimenta também de folk, de blues. Está sempre pronto pra qualquer parada — avaliza.
Um dos parceiros mais frequentes e antigos de Hamilton é o violonista Yamandu Costa. Os dois se conheceram em 1997 e não se desgrudaram mais: fizeram shows, discos e, há poucos meses, acompanharam a cantora americana Melody Gardot em duas faixas de seu disco. Yamandu define o amigo como “exagero de equilíbrio”:
— O Hamilton é um cara que gosta de dar risada, só que tem uma disciplina de dar inveja. Ele é aberto para as informações, mas tem uma carga de brasilidade muito forte.
Compondo e lançando discos sem parar (ele tem sua própria gravadora, a Brasilianos), o bandolinista se considera, na essência, um músico popular:
— Às vezes, minha música pode parecer difícil, isso porque ouço muita coisa e não gosto de abrir mão de um acorde mais complexo. Mas a essência do que eu faço é melódica. É Pixinguinha.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/o-bandolim-internacional-de-hamilton-de-holanda-5762314#ixzz23yoFLjyD
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Do Jornal O Globo, texto sobre padrões atuais de música.

A música está cada vez mais previsível

Pesquisa mostra que composições das décadas mais recentes tendem a se parecer mais umas com as outras do que no passado
O GLOBO
Publicado:
27/07/12

A época dourada da música é passado. O Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) confirma esta afirmação. O trabalho, que analisou 464.411 canções, concluiu que as composições criadas nas décadas mais recentes tendem a se parecer mais umas com as outras do que as de tempos mais antigos. A análise foi publicada na última edição da revista “Scientific Reports”. Segundo os parâmetros analisados, as transições entre os grupos de notas diminuíram de forma contínua durante os últimos 55 anos.
— Estes parâmetros musicais nas canções são como palavras de um texto, e observamos que cada vez há menos palavras diferentes — explica o pesquisador do Instituto de Pesquisa e Inteligência Artificial da CSIC, Joan Serrà, responsável pelo trabalho.
Ele explica que, dada uma nota musical, é relativamente mais fácil de adivinhar qual será a seguinte em uma canção atual. Do mesmo modo, as composições musicais mais recentes também apresentam uma menor diversidade de timbres e tendem a ser interpretadas com os mesmos instrumentos.
— Na década de 60, por exemplo, grupos como Pink Floyd experimentavam muito mais com a sonoridade do que agora — opina Joana Serrà.
Segundo o pesquisador, este processo de homogeneização poderia ocorrer devido aos modismos, já que “se observa uma tendência de seguir as correntes dominantes”, segundo Serrà. As peças analisadas pela equipe são provenientes de uma base de dados pública de mais de um milhão de canções elaborada pela Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, que foram publicadas entre 1955 e 2010. As obras respondem a um amplo número de estilos, como rock, pop, hip hop, metal e eletrônica.

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(English) Brasilianos 3, Site World Music Central

Sublime Bandolim
BY AROMERO – AUGUST 4, 2012
POSTED IN: CD REVIEWS

Hamilton de Holanda Quinteto – Brasilianos 3
Hamilton de Holanda Quinteto
Brasilianos 3 (Adventure Music, 2012)

Bandolim (mandolin) maestro Hamilton de Holanda continues his Brasilianos series with a third volume, titled Brasilianos 3. The album was recorded in Rio de Janeiro in 2011 and features an outstanding band of young Brazilian musicians, including guitarist and co-composer Daniel Santiago, bassist André Vasconcellos, drummer Marco Bahia and harmonica player Gabriel Grossi.

Once more, Hamilton de Holanda demonstrates his admirable technique and inspiration on the 1o-string bandolim. All the pieces on the album are all original compositions by Hamilton de Holanda. Guitarist Daniel Santiago co-wrote four of the cuts. The result is an absolutely exquisite collection of contemporary acoustic selections rooted in Brazilian traditional music and jazz.

Although most of the music is instrumental, the celebrated Brazilian singer-songwriter and guitarist Milton Nascimento makes a guest appearance on ‘Guerra e Paz I’.

Brasilianos 3 is a memorable album by one of the great instrumentalists and composers in contemporary Brazilian roots music.

(http://worldmusiccentral.org/2012/08/04/sublime-bandolim/)