HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Arquivo do mês: agosto 2013


Hamilton de Holanda e Stefano Bollani: O Que Será? – review(The Guardian)

Por John Fordham (The Guardian)

Stefano Bollani and Hamilton de Holanda
O Que Sera?
ECM

2013

There aren’t many ECM albums that mix live-audience rapture with solemnity-mocking jokes from the performers, but label boss Manfred Eicher won’t feel he is risking his revered company’s credibility with this delightful set. The Italian pianist Bollani and the Brazilian De Holanda, who plays the bandolim (a 10-string mandolin), have worked up a largely South American repertoire of tangos and love songs, variously treating them with dazzling virtuosity, humour and captivating tenderness. Baden Powell’s Canto de Ossanha has both players pounding the woodwork like a conga section, and the ecstatic finale takes in classical restraint, feverish Latin dancing and ragtime piano. This remarkable duo’s pleasure in their work is infectious.

Stefano Bollani e Hamilton de Holanda, um duo de virtuoses

Por Luiz Orlando Carneiro(Jornal do Brasil)

O italiano Stefano Bollani, 40 anos, não é apenas o mais aclamado pianista de jazz de seu país. Sua fama espalhou-se pela Europa e chegou aos Estados Unidos, desde que foi eleito pelo grande trompetista Enrico Rava o seu parceiro predileto, como atestam os quatro álbuns que gravaram para a ECM entre 2003-2008: Easy living, com o quinteto italiano; Tati, em trio com o baterista Paul Motian;The third man, em duo; New York days, em quinteto com Mark Turner (sax tenor), Larry Grenadier (baixo) e Motian. Da discografia mais recente de Bollani – um virtuose eclético de formação clássica, que adora a boa música popular brasileira – destacam-se: Orvieto (ECM), duo com mestre Chick Corea gravado em 2010, no festival de jazz anual que tem lugar naquela cidade fundada pelos etruscos; oConcerto campestre de Francis Poulenc (1889-1963), originalmente para cravo e orquestra, com a Filarmônica del Teatro Regio di Torino (selo Avie).

O carioca Hamilton Holanda, 37 anos, criado e formado em Brasília, é o maior bandolinista (de 10 cordas, e não de oito) do mundo. Em matéria de técnica e de criatividade não tem competidores no instrumento que, no Brasil, é o “violino” do chorinho e, no Mediterrâneo (Itália e França), o companheiro do acordeão na interpretação das cançonetas de bares e ruas. Tanto é assim que ele faz o maior sucesso quando se apresenta nos festivais europeus de música como convidado especial de improvisadores do quilate do acordeonista Richard Galliano. E também do pianista Stefano Bollani (A dupla pode ser vista-ouvida, no youtube, em ação no Festival de Bolzano, no Tirol italiano, 2009, ou em Lacco Ameno, 2011).

Finalmente, o dono da ECM, Manfred Eicher, resolveu lançar um CD com esta extraordinária dupla, gravada em apresentação, em agosto do ano passado, no festival Middelheim Jazz (Antuérpia, Holanda). Trata-se de O que será – uma seleção de 10 faixas que inclui, além da faixa-título (Chico Buarque), de pouco mais de três minutos, improvisações a partir dos seguintes temas: Canto de Ossanha (8m50), de Baden Powell; Rosa (3m35), de Pixinguinha; Apanhei-te cavaquinho (5m20), de Ernesto Nazareth; Luiza (6M15), de Tom Jobim; Beatriz (3m20), de Edu Lobo; Oblivión (4m30), de Astor Piazzolla; os originais Il barbone di Siviglia (6m25) e Caprichos de Espanha (3m); a canção Guarda che luna (6m50).

Numa entrevista concedida a Ted Panken (Downbeat, maio 2012), Stefano Bollani garantiu que não costuma fazer, antes dos concertos, os chamados soundchecks (tomadas de som): “Tento sempre não ter na cabeça nenhum som antes de começar a tocar”. E também disse que é mais “divertido” tocar na base do aqui e agora do que compor. Ou seja, ele usa a sua prodigiosa técnica a serviço de um modo de expressão musical – e não de um tipo de música – que chamamos de jazz

Hamilton de Holanda pensa do mesmo jeito, a julgar pelo destaque que dá no seu site à afirmação de que “o importante não é o passado (a tradição) nem o futuro (a modernidade)”, mas a “intercessão” entre o ontem e o amanhã, “no momento presente, aqui e agora”. E não é por acaso, certamente, que ele e o genial multi-instrumentista Hermeto Pascoal emergiram do chorinho – o modo de expressão mais espontâneo e envolvente da música popular instrumental brasileira. (36)

O CD O que será, do duo Bollani-Holanda, é iguaria musical fina para os ouvintes mais exigentes. Vale dizer, para os que apreciam Pixinguinha e Villa-Lobos. E também Martial Solal, Ahmad Jamal e Keith Jarrett – para citar três pianistas de jazz que Stefano Bollani qalifica de “real masters”.

***

P.S.- O duo Bollani-Holanda apresenta-se no próximo dia 1º de setembro, um domingo, às 20 horas, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Ouro Preto (MG), na programação do Festival Mimo. Este festival musical, que está completando 10 anos, começou nesta última sexta-feira em Pararaty (RJ), e se encerra no dia 8 de setembro, em Olinda (PE). Nesta cidade, o duo vai tocar no dia 6/9. No dia seguinte, também na Igreja da Sé de Olinda, a atração do festival será o acordeonista francês Richard Galliano.

Hamilton de Holanda reúne muitos sotaques para Pixinguinha.

O bandolinista junta músicos como o americano Wynton Marsalis e o cubano Chucho Valdés em tributo ao mestre.

Por LEONARDO LICHOTE (O Globo)

Olhando para fora. Instrumentista convidou amigos que conheceu em anos de viagens para participarem do CD “Mundo de Pixinguinha” Fabio Seixo

RIO – Valsa francesa, melancolia portuguesa, acentos do jazz americano, molho cubano. E, atravessando todos eles, brasileiríssimos, o bandolim de Hamilton de Holanda e as melodias de Pixinguinha. No CD “Mundo de Pixinguinha”, o instrumentista levou as composições do mestre para viajar pelo globo a bordo de seu bandolim e, em cada porto, teve um convidado. Carimbaram seu passaporte o trompetista americano Wynton Marsalis, os pianistas cubanos Chucho Valdés e Omar Sosa, o também pianista italiano Stefano Bollani, o acordeonista francês Richard Galliano e o pianista português Mario Laginha — além deles, estão no álbum os brasileiros André Mehmari (piano), Carlos Malta (sax tenor) e Odette Ernest Dias (flauta).

— Participei de uma exposição sobre Pixinguinha que Lu Araújo (produtora do CD ao lado de Hamilton e de Marcos Portinari) montou em Brasília, e ali tive a ideia de fazer um disco em homenagem a ele — conta o bandolinista. — Como viajo muito (hoje ele passa 40% do ano fora do Brasil), há muito tempo pensei em juntar as duas coisas, chamar amigos que tenho acumulado nessas viagens para participar. Porque a música do Pixinguinha convida a gente a tocar junto, é agregadora por si só.

O conhecimento dos músicos estrangeiros convidados sobre Pixinguinha era, em geral, pequeno — para alguns, o compositor era uma completa novidade:

— Quando mostrei “Lamentos” para Chucho, ele me interrompeu num momento, ficou louco, dizia “gênio”. Esse, aliás, era o elogio mais barato que eu ouvia — conta Hamilton. — Marsalis comparou-o com Scott Joplin (compositor e pianista da virada do século XIX para o XX, um dos pais do jazz) e disse que nunca tinha tocado algo tão difícil para trompete (ele interpreta “Um a zero”).

No disco — realizado com o patrocínio do Programa Natura Musical —, o que se ouve é mais que um diálogo entre instrumentistas. Há um encontro de escolas, de sotaques, de diferenças e afinidades.

— Se você ouve as duas de Chucho (“Lamentos” e “Benguelê”), percebe como Cuba e Brasil são próximos — diz Hamilton. — “Agradecendo”, com Galliano, soa como uma valsa francesa, ele puxou para esse lado. Bollani (“Canção da odalisca” e “Seu Lourenço no vinho”) leva mais para o jazz. “Rosa” com Laginha não chega a ser um fado, mas tem o sentimentalismo português.

Hamilton afirma que o CD — gravado em cidades como Málaga, Paris, Roma, Lisboa, Nova York e Rio — aposta na proximidade entre o jazz e o choro:

— Choro e jazz começaram juntos. Mas o choro, por muito tempo, não se deixou misturar, enquanto o jazz se abriu. O CD propõe o reencontro, apoiado na improvisação, que no choro costuma ser uma variação sobre a melodia, enquanto no jazz é a criação de uma nova melodia sobre a harmonia. No disco cruzo as duas coisas.

Entre Brasil e Europa

Pixinguinha, na visão do bandolinista, é o nome perfeito para abrigar esse encontro:

— Ele consegue sintetizar os ritmos nascentes brasileiros, como o samba, com a valsa, a polca europeia. É capaz de encontrar o exato ponto de comunicação entre os dois universos — avalia o bandolinista.
Uma das músicas, “Canção da odalisca”, pode ser baixada gratuitamente a partir desta quinta-feira no site www.naturamusical.com.br Hamilton fará os shows de lançamento no Rio (3 de setembro, no Teatro Net Rio), em Belo Horizonte (dia 4, no Palácio das Artes) e em São Paulo (dia 8, Teatro Alfa). No palco, ele terá Bollani, Galliano e Sosa — na lógica do improviso:

— O show é diferente do disco, e cada show é um show — explica.

TRIO – Como foi gravado ?

O resultado sonoro do CD TRIO vem sendo elogiado por vários músicos e especialistas no assunto. Posto aqui dois textos sobre a gravação, mixagem e masterização do disco. Foram escritos por Daniel Musy, engenheiro de áudio com quem já trabalho há anos, responsável pela gravação e mixagem e por André Dias, engenheiro de masterização que estreou com esse disco o processo de “masterização na fita” (Tape Layback). Eles nos explicam e nos mostram todo o trabalho que é feito para que o resultado final agrade nossos ouvidos.

GRAVAÇÃO DO TRIO por Daniel Musy
Estúdio Fibra – Rio de Janeiro

Domingo, 27 de fevereiro de 2013. Chegou o dia de começarmos mais um disco com o Hamilton de Holanda, dessa vez, o Hamilton de Holanda Trio.

Já trabalhamos juntos há vários anos, e cada vez que projetamos um novo disco, procuramos algo diferente, novo, e inovador! Havíamos feito o Hamilton com banda, solo, quarteto, quinteto, sinfônico, e agora, o formato em TRIO trazia novos desafios técnicos!

Sempre me esforço pra que o processo de registro de um disco seja um momento especial, gostoso e leve para o artista : o estúdio expõe o artista e toda sua fragilidade e, se tratando do Hamilton existe um preocupação redobrada em fazer com que a “mágica” do momento seja registrada!

Como viemos fazendo em todos os discos, decidimos gravar o TRIO ao vivo. Hamilton, André e Thiago tocariam juntos sem “overdubs”.
Para que tivésssemos uma unidade sonora bem grande, procurei escolher prés e microfones que ajudassem nessa estética.

Pré Amps

Todos os prés de microfones utilizados foram Neve. Alguns da marca Brent Averill, alguns da marca AMS neve, mas todos com a mesma característica sônica. Lá no FIBRA temos uma quantidade bem grande desses prés o que possibilita essa escolha, temos a linha 1073, 1081, 1072.

Microfones

A escolha de microfones foi bastante cuidadosa também. Encontramos uma combinação para o bandolim do Hamilton que funciona muito bem. AKG 414 EB junto com um DPA 4009, ambos ligados em um par de Neve 1073.

Para o contrabaixo do André, também encontramos uma combinação bem bacana desde a gravação do Brasilianos 3 que é : Neumann M149 e Royer R122, ambos ligados em Neve 1073. O Royer é um microfone de ribbon que gosto muito e traz um grave bastante interessante pro instrumento do André, o que vem agradando bastante a ele e a todos nós.

Para a percussão do Thiaguinho, fizemos uma experiência que deu muito certo, pois queria registrar basicamente um bom LR. Claro que microfonamos tudo, mas queria um LR onde reproduzisse de forma muito natural seus timbres, dinâmicas e movimentos. Para isso usamos um par de microfones condenser da Charter Oaks 538A ligados a dois prés Neve 1081. Recentemente fui contactado pelo pessoal da Studio Brazil e me apresentaram esses microfones. Realmente o Charter Oak trouxe um sabor muito especial para a percussão, e ficamos muito felizes com o resultado. Além disso, foram usados: Wunder U47 fet no bumbo, Shure Beta 57 na caixa e repique, AKG 414 TLII nas congas, e AKG 451 EB nos efeitos e perfumarias. Alimentei todos esses microfones em prés Neve 1081.

Gravação e Mixagem

Gravamos o projeto em ProTools HD 24 bits 96K. Pelo fato do FIBRA estar bastante equipado e com uma coleção de outboards muito grande, optamos por não usar absolutamente NENHUM plugin no processo, nem gravando, nem mixando. Essa opção realmente fez com que a resolução do áudio ficasse muito alta. O André Dias, engenheiro de masterização, além de grande amigo e parceiro, participou do projeto desde o início. O fato de nossos estúdios ficarem em um mesmo complexo nos demos o “luxo” de no primeiro dia de mixagem André subir com duas músicas para que fizéssemos um trabalho em conjunto, buscando ao máximo a excelência no resultado final.
Mixamos o disco em um SSL Matrix, e como disse, não utilizamos nenhum plugin. Pouquíssima equalização foi adicionada a mixagem, apenas algo corretivo, utilizando equalizadores Neve 1073, SSL 4000 e SSL 9000. É importante também dizer que procuramos usar pouca compressão para preservar a dinâmica natural do TRIO. Gosto muito do DBX 160VU no bandolim e no contrabaixo. Esses compressores são incríveis. Usei um compressor NEVE 33609 no bumbo do Thiago, apenas. O objetivo era ter uma mixagem natural e com muita resolução, pois sabíamos que o disco seria masterizado em uma ATR 102 e aproveitaríamos a compressão mágica da fita que esse equipamento traz… e DEU CERTO !

MASTERIZAÇÃO DO TRIO por André Dias
Estúdio Post Modern Mastering – Rio de Janeiro

O clima era de festa, estávamos ansiosos, pois seria oficialmente o primeiro álbum a ser masterizado por Tape Layback usando a ATR 102 ! Nossa máquina é um exemplar muito especial. Totalmente reformada e customizada por Mike Spitz, na ATR Services, Pensilvanya, EUA, equipada com Electrónica Aria Reference Series e cabeças de 1/4″ e 1/2″ Flux Magnetics com resposta de frequência extendida.

A masterização começou desde as gravações. Acompanhei todo o processo de gravação brilhantemente conduzido por Daniel Musy. O fato de nossos estúdios estarem localizados no mesmo complexo nos proporciona uma interação muito funcional e precisa.
No primeiro dia de gravação eu peguei duas faixas com o Dan e Hamilton e capturei para a fita para começar a ouvir e experimentar diferentes opções de velocidade e de eletrônica para observar o comportamento e resposta da unidade do registro.
Ouvimos os resultados em um teste A/B no Fibra e, nesse momento, a magia do som da fita analógica invadiu os corações de todos no estúdio !

Levei alguns dias experimentando diversos alinhamentos na ATR, ouvindo e comparando os resultados.
Eu queria precisão absoluta. A maioria das faixas eram resultado de takes únicos, sem edições, sem over dubs ! Isso foi só mais um motivo para alimentar a obsessão de capturar a mixagem da forma mais precisa possível, para que eu pudesse lapidar a coesão brilhante da execução e as texturas dos três instrumentos. Eu usava sempre 7 tons de alinhamento, 1K, 10K, 15K, 18K, 100Hz, 50Hz e 22Hz.
Desde quando comecei a pensar na masterização desse disco, eu tinha certeza de que não queria usar compressores e limiters. Usaria apenas a compressão mágica e a suavidade da fita analógica.

Quando utilizamos a fita analógica, se o sinal capturado ultrapassar o “limite dos 0dB”, dependendo das características da fita e das configurações de calibração, a forma de onda é comprimida por propriedades físicas da fita – quanto mais quente o sinal de entrada, maior será o efeito, conhecido como “saturação de fita”. Como resultado temos picos arredondados em vez de cortados, o que se traduz em um som mais amplo, mais quente, rico, suave, com textura e definição incríveis. Uma magia que proporciona uma audição extremamente agradável ao ouvido humano.

O passo seguinte foi então capturar os arquivos digitais em alta resolução (24 bits/96kHz), para comercialização em High Definition e Mastered for iTunes (MFiT).
Para o CD, os arquivos foram convertidos para 16bits/44.1kHz usando Weiss Saracon.