HAMILTON DE HOLANDA

Blog


Hamilton de Holanda reúne muitos sotaques para Pixinguinha.

 

O bandolinista junta músicos como o americano Wynton Marsalis e o cubano Chucho Valdés em tributo ao mestre.

Por LEONARDO LICHOTE (O Globo)

Olhando para fora. Instrumentista convidou amigos que conheceu em anos de viagens para participarem do CD “Mundo de Pixinguinha” Fabio Seixo

RIO – Valsa francesa, melancolia portuguesa, acentos do jazz americano, molho cubano. E, atravessando todos eles, brasileiríssimos, o bandolim de Hamilton de Holanda e as melodias de Pixinguinha. No CD “Mundo de Pixinguinha”, o instrumentista levou as composições do mestre para viajar pelo globo a bordo de seu bandolim e, em cada porto, teve um convidado. Carimbaram seu passaporte o trompetista americano Wynton Marsalis, os pianistas cubanos Chucho Valdés e Omar Sosa, o também pianista italiano Stefano Bollani, o acordeonista francês Richard Galliano e o pianista português Mario Laginha — além deles, estão no álbum os brasileiros André Mehmari (piano), Carlos Malta (sax tenor) e Odette Ernest Dias (flauta).

— Participei de uma exposição sobre Pixinguinha que Lu Araújo (produtora do CD ao lado de Hamilton e de Marcos Portinari) montou em Brasília, e ali tive a ideia de fazer um disco em homenagem a ele — conta o bandolinista. — Como viajo muito (hoje ele passa 40% do ano fora do Brasil), há muito tempo pensei em juntar as duas coisas, chamar amigos que tenho acumulado nessas viagens para participar. Porque a música do Pixinguinha convida a gente a tocar junto, é agregadora por si só.

O conhecimento dos músicos estrangeiros convidados sobre Pixinguinha era, em geral, pequeno — para alguns, o compositor era uma completa novidade:

— Quando mostrei “Lamentos” para Chucho, ele me interrompeu num momento, ficou louco, dizia “gênio”. Esse, aliás, era o elogio mais barato que eu ouvia — conta Hamilton. — Marsalis comparou-o com Scott Joplin (compositor e pianista da virada do século XIX para o XX, um dos pais do jazz) e disse que nunca tinha tocado algo tão difícil para trompete (ele interpreta “Um a zero”).

No disco — realizado com o patrocínio do Programa Natura Musical —, o que se ouve é mais que um diálogo entre instrumentistas. Há um encontro de escolas, de sotaques, de diferenças e afinidades.

— Se você ouve as duas de Chucho (“Lamentos” e “Benguelê”), percebe como Cuba e Brasil são próximos — diz Hamilton. — “Agradecendo”, com Galliano, soa como uma valsa francesa, ele puxou para esse lado. Bollani (“Canção da odalisca” e “Seu Lourenço no vinho”) leva mais para o jazz. “Rosa” com Laginha não chega a ser um fado, mas tem o sentimentalismo português.

Hamilton afirma que o CD — gravado em cidades como Málaga, Paris, Roma, Lisboa, Nova York e Rio — aposta na proximidade entre o jazz e o choro:

— Choro e jazz começaram juntos. Mas o choro, por muito tempo, não se deixou misturar, enquanto o jazz se abriu. O CD propõe o reencontro, apoiado na improvisação, que no choro costuma ser uma variação sobre a melodia, enquanto no jazz é a criação de uma nova melodia sobre a harmonia. No disco cruzo as duas coisas.

Entre Brasil e Europa

Pixinguinha, na visão do bandolinista, é o nome perfeito para abrigar esse encontro:

— Ele consegue sintetizar os ritmos nascentes brasileiros, como o samba, com a valsa, a polca europeia. É capaz de encontrar o exato ponto de comunicação entre os dois universos — avalia o bandolinista.
Uma das músicas, “Canção da odalisca”, pode ser baixada gratuitamente a partir desta quinta-feira no site www.naturamusical.com.br Hamilton fará os shows de lançamento no Rio (3 de setembro, no Teatro Net Rio), em Belo Horizonte (dia 4, no Palácio das Artes) e em São Paulo (dia 8, Teatro Alfa). No palco, ele terá Bollani, Galliano e Sosa — na lógica do improviso:

— O show é diferente do disco, e cada show é um show — explica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>