HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Arquivo do mês: abril 2014


A criminalização da Cultura no DF

O oboísta ficou surdo.


Isso aconteceu durante os ensaios da orquestra. A razão? Muito simples: o pobre músico ficou, durante décadas, sentado à frente do naipe de metais. Os pavilhões dos trompetes estiveram, durante cerca de 30 anos, apontados para suas orelhas.


Na plateia, ninguém percebeu o processo de ensurdecimento. Tudo soou, sempre, muito bem. De longe, o som do oboé sempre combinou equilibradamente com os sons dos metais.


O leitor acha essa historinha absurda? Não é. No Reino Unido, grandes orquestras, atualmente, medem os níveis de decibéis de várias áreas para saber quais músicos estão sujeitos a mais intensidade sonora. As orquestras estão instalando, em pontos estratégicos, painéis de absorção sonora e telas protetoras à frente do naipe de metais.


Um decibelímetro colocado próximo ao naipe de metais ou da percussão indicará cerca de 100dB. Entretanto, colocado ele na plateia, a mais de 30 metros da fonte sonora, indicará confortáveis 50dB.


Infelizmente, os técnicos do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), do Governo do Distrito Federal, não sabem disso e costumam descumprir a legislação. Ou, melhor, cometem ato de perseguição a músicos, a pretexto de cumprirem a legislação.


A Lei nº 4.092, de 30 de janeiro de 2008, chamada Lei do Silêncio, determina no artigo 7º: “Quando a fonte emissora estiver em uma zona de uso e ocupação diversa daquela de onde proceder a reclamação de incômodo por suposta Poluição sonora, serão considerados os limites de emissão estabelecidos nesta Lei para a zona de onde proceder a reclamação.”


Ou seja, quando um morador chama o Ibram reclamando da música que soa em um bar vizinho, o fiscal do órgão, munido de seu decibelímetro, não deve ir ao bar: ele deve ir ao apartamento do reclamante. É isso que está determinado na Lei do Silêncio. Para áreas mistas do DF, onde estão, em geral, bares com música ao vivo, a lei estabelece como limite o nível de 55dB no período noturno. No bar, o decibelímetro do fiscal poderá indicar 90dB, mas no apartamento do reclamante o aparelho medirá nível abaixo de 55dB. De acordo com a lei, é esta a ação que o fiscal deve proceder: medir o nível de pressão sonora que chega aos ouvidos do reclamante no interior da residência dele. Pouco importa quantos decibéis o músico produz no bar.


Bares de Brasília têm sido interditados, fechados e multados graças às fiscalizações equivocadas e perversas de fiscais do Ibram. Tudo se passa como se existissem intenções deliberadas de perseguição aos músicos e à prática musical em geral. O aparato repressor do Governo do Distrito Federal cresce com a adesão da Agência de Fiscalização do DF (Agefis), beirando a extrapolação de suas competências.


A consequência dessas arbitrariedades tem sido o desemprego de músicos da noite. A capital federal das noites ricas de cultura passa a sofrer de uma apatia cultural vergonhosa.


A lei que estabelece limites na intensidade sonora da música é a mesma lei que trata dos ruídos provenientes do tráfego, dos carros de som, dos veículos automotores e do tratamento acústico de hospitais. Não temos notícias de fiscalizações nesses aspectos: apenas os músicos são reprimidos.


Motoqueiros irresponsáveis continuam azucrinando a população com os roncos de suas máquinas das quais foram retirados os silenciadores. Motoristas incomodam, livremente, pedestres e outros motoristas com seus potentes equipamentos de som instalados nos automóveis. Hospitais públicos continuam com suas paredes finas, de alvenaria de tijolo em pé, expondo os ouvidos dos pacientes aos ruídos externos.


A mesma Lei nº 4.092, que o Ibram descumpre, determina que escolas, creches, bibliotecas e ambulatórios devem comprovar o devido tratamento acústico. A lei deu o prazo de cinco anos àquelas instituições para que elas instalassem isolamentos acústicos. Esse prazo venceu em janeiro de 2013. Não vemos qualquer tratamento acústico nas paredes das instituições governamentais daquelas áreas. Também não vemos a Agefis e o Ibram fiscalizando e multando os hospitais e postos de saúde do GDF.


A Lei nº 4.092 e as normas da Associação Brasileira de Notas Técnicas (ABNT) são totalmente omissas com relação às frequências dos sons, estabelecendo regras apenas para as intensidades. Faz-se necessária urgente a revisão da lei, atendendo as reivindicações dos músicos.


Jorge Antunes, maestro, compositor, pesquisador do CNPq,

pesquisador sênior da UnB e membro da Academia

Brasileira de Música

ENTREVISTA: SILVESTRE GORGULHO(Ex-secretário de Cultura do DF), À QUEIMA-ROUPA

Por: Ana Maria campos, Helena Mader – Eixo capital – Correio Braziliense – 27/04/2014
Com: Silvestre Gorgulho – Jornalista e ex-secretário de Cultura do DF
Tombar o céu de Brasília é um conceito poético ou real?
Registrar um bem cultural nos livros de Tombo do Iphan é o reconhecimento de valores e símbolos. Não precisa ser algo material, como sabemos. Tratam-se de sutilezas. Portanto, tanto pode ser visto como conceito poético quanto do mundo real. Poético porque é inspiração, é atração, é melodia, é poema e se fez em tantas canções. E é real porque é concreto. Tombar é também proteger, defender e preservar para não se perder nunca. Os moradores de Copacabana, no Rio, fora da Avenida Atlântica, já não veem mais o céu, um dos mais lindos do Brasil. Não preservaram o céu.
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O que significa na prática?
Na prática, significa eternizar o céu de Brasília pela proteção da instituição competente. A não intervenção institucional por causa da burocracia é burrice. Quando o Aldemo Garcia encabeçou uma campanha para que uma companhia de celular diminuísse o tamanho de uma torre lá na 411 Sul, o sentimento de proteção do céu dos moradores das superquadras falou mais alto. Quando criamos a Torre da TV Digital para que as dezenas de tevês não fizessem cada uma sua torre, tipo paliteiro, na paisagem de Brasília e espetassem o céu, foi pelo mesmo motivo.
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Muda alguma coisa na vida do brasiliense?
É a agregação de um valor simbólico, sentimental, no tombamento de Brasília. Nada mais. E se não cuidarmos, corre-se o risco de não ter mais a integridade da paisagem, de não se poder ver e sentir o infinito desta paisagem, de qualquer lugar do Plano Piloto, do nascer ao pôr do sol. O risco de não se ver mais o céu refletido nos espelhos d’água do Congresso, do Itamaraty, do Palácio do Planalto, do Museu e de tantos outros lugares. Cidade única no mundo que se pode ver o céu olhando para cima ou para baixo. Isso é coisa de Brasília.
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O tombamento do Plano Piloto não resolve?
Resolve e não resolve, porque não garante. A cidade é tombada, e os outdoors estão voltando acintosamente. A poluição visual é terrível. Falta fiscalização? Não sei. Mas falta mesmo é uma defesa institucional do espaço vazio da cidade.
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Por que algumas pessoas são tão críticas à proposta?
Olha, vamos continuar as perguntas: por que algumas pessoas fazem poesia, gostam de poesia, decoram poesia e outras não gostam? Por que algumas pessoas roubam as outras? Por que algumas pessoas matam as outras? Sabe por quê? Porque o ser humano nasce bárbaro e é a educação e a cultura que vão sensibilizá-lo para a vida. Para entender de céu e de tombamento, de poesia e de anjo, tem que ter sensibilidade.
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Onde o céu é mais bonito no DF?
De qualquer quadrante do DF, o céu está à altura dos olhos e do coração. Mas lá da Torre de TV Digital, o céu está à altura das mãos.

“Gosto de reverenciar músicos do passado”

por Eder Fonseca – Panorama Mercantil

Para muitos especialistas e críticos, o bandolinista e compositor carioca Hamilton de Holanda é um dos gênios musicais do país. O mesmo mudou-se em 1977 para Brasília com a família. Começou a tocar aos 5 anos de idade e a se apresentar aos 6 anos de idade. Ficou em evidência na cena da música brasileira em 1995, quando foi considerado o melhor intérprete no II Festival de Choro do Rio de Janeiro, com “Destroçando a Macaxeira”, que ficou em segundo lugar como composição. Atualmente toca com o seu quinteto formado por André Vasconcellos, Daniel Santiago, Gabriel Grossi e Márcio Bahia. Com o irmão Fernando César formou o grupo “Dois de Ouro” e ao longo de sua carreira fez parcerias com vários artistas renomados como o italiano Stefano Bollani, o cubano Chucho Valdés, o norte-americano Wynton Marsalis entre outros. Bacharel em composição pela UnB (Universidade de Brasília), já lecionou na Escola de Choro Raphael Rabello. Para o portal Panorama Mercantil, o virtuose diz que a música tem vários poderes, um deles é o poder de curar.

Quando fizemos a nossa pesquisa, o que mais apareceu sobre você foi a palavra gênio. Como é a sua reação quando lê ou ouve que é um gênio do bandolim?

Me sinto muito feliz de ter percorrido um caminho musical que começou na infância e poder desenvolver minha vocação durante todo esse tempo, estudando, me divertindo, trabalhando bastante, podendo viver. Eu gosto muito quando a música chega ao coração das pessoas, principalmente quando vejo a reação nos shows, o contato direto e imediato. Me lembro quando era criança e via isso acontecer. Uma dessas vezes foi em um congresso sobre crianças superdotadas, onde toquei meu bandolim e vi o impacto na hora, a emoção e a alegria das pessoas. Eu devia ter uns 10 anos de idade. Aquilo foi marcante. Ao mesmo tempo, era a coisa mais normal pegar o bandolim e tocar. Sempre estudei música, seja tocando em roda de choros ou na ‘academia’, até hoje me dedico muito ao estudo, à descoberta. Tenho fascínio por aquilo que ainda não aprendi.

Outros artistas têm uma visão muito parecida com a sua, quando dizem que a música tem o poder de cura. Nos fale mais sobre isso?

Acho que a música tem vários poderes, um deles é o de cura. Eu mesmo me curo de algumas gripes e dores com música. Ah, não sou só eu que falo, os musicoterapeutas estão aí pra mostrar a toda gente que é verdade.

Alguns críticos dizem que o que você faz é choro; outros dizem que é samba e alguns dizem que é jazz. Mesmo dizendo que gosta que os especialistas classifiquem isso, como você classificaria a sua música?

É bem difícil classificar. Eu posso citar alguns elementos que ela tem. O ‘lastro’ é o choro. Mas não é só choro, tem samba, tem música mineira, nordestina, jazz, pode perceber pitadas de flamenco – influência de Raphael Rabello – e eu diria, que em certas situações, o ‘acabamento’ da música clássica. Tudo isso com melodias bem brasileiras. Já toquei em vários festivais pelo Brasil e pelo mundo: Festival de Jazz, de World Music, de Bandolim, Rock, Música Clássica, Samba, Choro, Música Instrumental, entre outros. Pra que tudo faça sentido, tento manter um padrão de som, fraseado e rítmico, e aí vou ‘encaixando’ o bandolim em diversas situações. Eu toco música brasileira. O jazz entra como ingrediente, como tempero. A liberdade e a relação com a “música feita na hora” é o que mais têm no jazz e uso na minha música.

“Quando as coisas são feitas de uma forma séria, são valorizadas”. O que seria fazer as coisas de uma forma séria no mundo musical?

Gosto muito de reverenciar músicos do passado, por exemplo. Vou sempre contra aquela máxima de que o país não tem memória. Tem que ter. E acho que uma delas é dar valor ao que foi feito por nossos mestres, mostrar que temos uma produção artística que contribuiu muito para o desenvolvimento da personalidade do povo brasileiro.

O cantor e compositor Erasmo Carlos, nos disse que o jabá oficializado domina os espaços na música brasileira atualmente. Acredita que isso é um fato, ou sua percepção é diferente?

Não sei se domina todo o espaço, mas o jabá está por aí em qualquer esquina da indústria musical. É complicado.

Voltando um pouco na sua infância, você começou a tocar com 5 anos e a apresentar com 6. Como são suas lembranças dessa época?

Tenho a lembrança de que estava sempre fazendo uma coisa muito ‘legal’, pra mim era igual a brincar. E gostava de saber que tocar me aproximava das pessoas, eu era bem tímido.
Stefano Bollani

Virtuose: Holanda toca com o Stefano Bollani. O bandolinista é considerado um gênio, e além do pianista italiano em questão, já fez parcerias com artistas como Chucho Valdés e Wynton Marsalis (Foto: Arquivo)

Você diz que quando termina um disco se desapega dele. Esse desapegar se dá para não ter a sensação que poderia ter feito ainda mais?

É quase isso, é o limite de ‘poder fazer mais’ com o ‘melhor do dia’. Não é fácil chegar a essa conclusão, por isso que digo desapego. É o equilíbrio entre aquilo que se quer fazer e o que dá pra fazer.

Em várias entrevistas, você sempre é perguntado sobre a sua produção que é intensa, e diz que não vai se podar, mesmo que isso incomode algumas pessoas. Você sente que as pessoas se incomodam quando um artista é prolífico?

Acho que não falei exatamente isso, sobre incomodar algumas pessoas. Eu já tive ‘reclamação’ de fã que diz que não consegue comprar todos os meus discos porque o dinheiro não dá pra tudo. Há alguns anos atrás – juntamente com meu sócio Marcos Portinari – abri uma gravadora independente e assim posso lançar o disco de acordo com o momento artístico. Alguns eu disponibilizo gratuitamente. Também tenho todos em ‘streaming’ no meu site oficial. Achei uma maneira de me adaptar aos dias de hoje. Assim, posso compor à vontade, tocar à vontade e gravar quantos discos conseguir e achar que tenha aquela ‘faísca’ original.

Um trabalho seu que consideramos excepcional, é o “Mundo de Pixinguinha” que saiu pelo selo Rob Digital e conta com diversos convidados, entre eles o grande músico cubano Chucho Valdés. Como foi a concepção desse disco em especial?

Esse foi um projeto que fiz com o apoio do “Natura Musical”, e que tem me dado muitas alegrias. A ideia surgiu em meio a uma exposição sobre Pixinguinha em Brasília, numa conversa com meu produtor e empresário, Marcos Portinari. Pensei em fazer uma homenagem ao Pixinguinha, o Marcos levantou a bola: por que não fazemos com convidados internacionais? Aproveitamos de nossa experiência fora do Brasil e desenvolvemos a ideia artística e a logística pra realizar esse projeto. Convidamos a amiga Lú Araújo, produtora e pesquisadora da obra de Pixinguinha. Fui gravar na Europa e nos EUA com os músicos convidados. A ideia era, a partir da partitura original, criarmos um arranjo na hora, no estúdio. Acho que o resultado foi a sintonia entre o choro e o jazz. Não simplesmente isso, mas a generosidade de cada músico com sua linguagem contribuindo com a obra do nosso mestre Pixinguinha. Foram eles: Chucho Valdés, Wynton Marsalis, Richard Galliano, Stefano Bollani, Omar Sosa, Mario Laginha, Odette Ernest Dias e os brasileiros Carlos Malta e André Mehmari.

Você acredita que todo artista tem uma responsabilidade social?

Acredito e tento fazer minha parte. Mas não só os artistas, qualquer cidadão, seja dentista, advogado, filósofo, publicitário ou esportista tem sua parcela de responsabilidade social. E principalmente os políticos.

Saindo um pouco da música, como tem visto o Brasil atualmente, com tantas coisas acontecendo sobretudo no campo social, como as manifestações por exemplo?

Fico com um misto de felicidade e preocupação. Felicidade porque a população tem que estar nas ruas mesmo, achei muito bom ver o que aconteceu no ano passado, ainda mais que o mundo inteiro estava vendo por conta da Copa das Confederações. O povo na rua pedindo, com razão, melhoras nas áreas de saúde, transporte e educação, em geral. Famílias indo às ruas, como deve ser. Mas fico preocupado com a ação violenta de uma pequena parte que vai à rua pra criar conflito, e não pra ajudar a resolver. Essa semana, infelizmente, tivemos a morte de um cinegrafista no Rio de Janeiro atingido por um rojão em meio a uma manifestação [aqui falando da morte do cinegrafista da Band Santiago Ilídio Andrade morto em 10/02]. Não imagino o que vai acontecer daqui pra frente, mas gostaria muito de ver o povo sempre na rua, pacificamente. A democracia agradece.

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