HAMILTON DE HOLANDA

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A viagem interior de Hamilton de Holanda

 

Por Felipe Moraes – Veja Brasília

Antes de Hamilton de Holanda pisar no palco do Teatro Oi Brasília, local escolhido para estrear a turnê Pelo Brasil, vídeos tomaram conta do cenário, em mini-telas redondas espalhadas pela parede. Entre imagens de shows e bastidores, vê-se, em breves minutos, uma crônica de viagens e apresentações – no Brasil e fora dele. Dali a pouco, enquanto sons de bandolim eram emitidos por uma versão digital do músico, projetada na parede, o próprio lá surgiu, em carne e osso e sozinho, iniciando este espetáculo cênico e audiovisual com A Escola e a Bola.

Este e outros treze temas formam o repertório da nova temporada do carioca. Aqui e em mais onze datas ele dá o pontapé de um trabalho que soa mais como ensaio aberto ao público do que uma série de shows prontos. As projeções ajudam tanto a ambientar as faixas em climas regionais – de norte a sul – quanto repassar uma carreira que começou cedo, aos cinco anos, quando ele ganhou do avô o “instrumentinho” – como ele carinhosamente chama o bandolim. Um presente de Natal que encontrou as mãos certas.

Pelo Brasil não é um show instrumental como outro qualquer. Hamilton conversa constantemente com a plateia, conta histórias de sua vida pessoal, do cotidiano das longas turnês, e se aproxima do público ao, entre uma música e outra, demonstrar as possibilidades sonoras do bandolim. A comunicação, claro, também se revela na sensibilidade com que ele desbrava tradições rítmicas de Norte e Nordeste, como na trincaFrevinhoA Volta da MacaxeiraCarimbobó.

Após emendar as pastoris O Jumento e a CapivaraSambaíba, o instrumentista pausa para ajustar as cordas. “Tá afinadinho aí, pai?”, diz. Segundos depois, pede a opinião de Frango Kaos, seu engenheiro de som (e roqueiro hardcore da banda brasiliense Galinha Preta): “tá bom aí?”. Depois, sentado num banquinho, dedilha as românticas e intimistas O Amor e a CançãoCalliandra Flor.

Ao contrário do típico espetáculo instrumental em que um gênio toca e os comuns aplaudem, este show-ensaio de Hamilton defende quase que uma inversão de papéis. A audiência não só aplaude. Ela conversa e cantarola. E o músico, fruto dessa rara mistura de talento e labuta, age como o maestro de uma orquestra popular. Lá pelas tantas, relêBrasileirinho com levada de reggae – a pedido do público – e riffs de rock. “De tanto me pedirem, fiquei uns dez anos sem tocá-la. Fui inventando. E, quando vi, já estava em outra música”, brinca.

Setenta minutos depois de aparecer no palco, Hamilton deixa-o com um sorriso de satisfação – e cansaço. Nunca viajou o país inteiro num voo tão veloz.

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