HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Arquivo do mês: julho 2015


Entrevista inédita com Hamilton de Holanda

Por Paulo Proença РMOTIF Рhttp://motif.mus.br/hamilton-de-holanda/

Nossa conversa com Hamilton de Holanda aconteceu em Belo Horizonte, em abril, momentos antes da passagem de som do espet√°culo que ele fez com o tradicional Conjunto √Čpoca de Ouro, em comemora√ß√£o ao Dia Nacional do Choro. Confira!

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- Hamilton, o que você tem escutado ultimamente?
Ah, eu ando escutando Luis Barcelos, que √© um bandolinista ga√ļcho mas mora no Rio, escuto os compositores cl√°ssicos que eu gosto de escutar sempre, tipo Piazzola, Tom Jobim, Paco de Lucia, Cartola. Um pouco de m√ļsica cl√°ssica tamb√©m,¬†Debussy, Villa-Lobos, tanta coisa. Na verdade, eu tenho uma biblioteca com muita m√ļsica e √†s vezes boto noshuffle e deixo rolando.

- Tem algum disco que nunca sai da audição, que você sempre escuta?
Tem o disco da trilha sonora do filme¬†Cinema Paradiso, uma trilha do Ennio Morricone. Uma coisa que ou√ßo sempre s√£o¬†Os Afro-sambas, do Baden Powell e do Vinicius [de Morais]. Tem um disco do Piazzola ao vivo no Central Park, escuto bastante tamb√©m. Do Tom tem mais de um, mas o que eu lembro bastante √© o¬†Matita Per√™, que √© um disco lindo que estou sempre ouvindo. O Vibra√ß√Ķes, do Jacob do Bandolim, um do¬†Chick Corea chamado¬†Three Quartets curto bastante tamb√©m.

- Além da trilha do Cinema Paradiso, tem alguma outra que te arrebatou?
Olha, tem uma outra, do próprio Ennio, The Mission, que é linda. Do John Williams tem várias, mas eu destacaria essas. Gosto também da trilha do De Volta para o Futuro.

- Recordação do primeiro disco que comprou ou ganhou, você tem?
Foi na √©poca do LP. O primeiro disco n√£o vou conseguir lembrar porque eu era muito pequeno mesmo, mas eram esses discos do Jacob, do Pixinguinha. Meu pai gostava muito tamb√©m daquelas big bands americanas. Mas o primeiro CD que me lembro de comprar foi o do Jo√£o Gilberto, chamado¬†Jo√£o, que ele canta ‚ÄúSampa‚ÄĚ do Caetano, um disco bem emblem√°tico dele.

- Você tem algum disco autografado, que você guarda com muito carinho?
Eu tenho um LP que fica na casa do meu pai, com o autógrafo da mulher do Jacob do Bandolim.

“A m√ļsica, ela tem um poder de cura at√©”

- Além das big bands, o que mais veio de influência musical da sua família?
Primeiro foi o choro, na verdade. Bossa nova tamb√©m e m√ļsica brasileira em geral. Meu pai gostava muito de choro e bossa nova, ent√£o por parte dele foi o que veio. Mas a conviv√™ncia com amigos me influenciou muito. At√© hoje o ser humano √© uma soma do que ele pensa com o que os outros pensam. Quando eu era adolescente, por exemplo, eu tinha uma banda de rock porque gostava daquelas bandas tipo Legi√£o Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude. Foi uma √©poca em que eu passei a ouvir mais MPB tamb√©m,¬†Djavan, Jo√£o Bosco que √© um pouco diferente do Jacob, que √© brasileiro tamb√©m mas √© diferente, s√£o de gera√ß√Ķes diferentes. E eu entrei nesse universo por meio dos amigos, n√£o da fam√≠lia.

- Do primeiro show que voc√™ foi como p√ļblico, voc√™ tem alguma lembran√ßa? Ou algum que te marcou na adolesc√™ncia?
O primeiro show que me lembro, na verdade, eu era atra√ß√£o e era p√ļblico. Toquei e era uma homenagem aos¬†15 anos de morte do Jacob e estava at√© o √Čpoca de Ouro l√°. Ent√£o, pra mim, estava tocando com os √≠dolos e assistindo da coxia¬†e aquilo pra mim foi o m√°ximo. Tenho uma boa recorda√ß√£o disso. Foi em 1984, Tributo a Jacob do Bandolim, na sala Villa Lobos, em Bras√≠lia.

- Um show que você lamenta ter perdido, que não rolou de ir por algum motivo.
Eu lamento não ter visto um show do Egberto Gismonti. Teve em Brasília, mas eu estava envolvido com outras coisas e não consegui parar para ver o show. E outra vez, na Itália, toquei com ele mas não consegui parar para ver o show. Gostaria de ter uma oportunidade de sentar e sacar um show dele inteiro.

- Nesses anos de carreira, inclusive, ele foi uma das suas parcerias de compartilhar palco. Qual foi o momento mais marcante de compartilhar palco com alguém?
Ah, é difícil, né? Foram tantos momentos bonitos. Essa resposta eu não vou te dar porque posso cometer alguma injustiça e não lembrar de algum momento bacana. Mas o que eu posso dizer é que eu sempre aprendo e é uma oportunidade de me reafirmar também. Porque se você consegue respeitar e trocar um tipo de ideia musical com outro artista, sem ferir e sem ser ferido, todo mundo ganha. A soma disso é maior.

- E há algum desejo de compartilhar, dividir o palco com alguém?
Eu queria tocar com a Orquestra Filarm√īnica de Berlim. Isso eu tenho vontade.

- E que outro instrumento musical que você gostaria de tocar?
√Č um que eu comprei no final do ano passado e que estou come√ßando a aprender, que √© o piano. Comprei pro meu filho na verdade, mas acabou que eu fico tocando [risos].

‚ÄúTodo Sentimento‚ÄĚ. √Č uma m√ļsica que me d√° um conforto

- Se voc√™ fosse produzir um festival de m√ļsica, quem estaria na sua programa√ß√£o?
P√ī, ia ser muito maneiro meu festival, cara [risos]! Ia ter rock, mas ia ter choro tamb√©m, ia ter jazz, m√ļsica cl√°ssica. Ia ser um festival com uns 4 tipos de palco diferente, com a possibilidade de voc√™ assistir artistas de diferentes universos al√≠, junto, compartilhando momentos legais. Meu festival ia ser bem bacana.

- Alguma atração específica?
Eu colocaria num palco, um grupo como¬†Hermeto Pascoal e o grupo dele, num outro colocaria uma cantora como¬†a Maria Rita, num outro palco botaria Met√°llica e no outro o √Čpoca de Ouro, sabe? Colocaria um palco ‚Äúmundo‚ÄĚ onde eu pudesse botar o flamenco, o jazz, m√ļsica da Su√©cia. Seria um festival muito doido, mas seria legal [risos].

- Que canção costuma te emocionar bastante?
Ah cara‚Ķ Ontem mesmo, fazia tempo que eu n√£o ouvia ‚ÄúEu Sei que Vou te Amar‚ÄĚ, do Tom Jobim, e falei ‚Äúnossa!‚ÄĚ. Tem umas m√ļsicas que voc√™ ouve, ouve, ouve e depois fica um tempo sem ouvir‚Ķ Essa m√ļsica, por exemplo, √© uma poesia! Tem uma m√ļsica dele com Chico Buarque, chamada ‚ÄúOlha Maria‚ÄĚ, que nossa! Uma do Milton Nascimento chamada ‚ÄúCais‚ÄĚ que √© muito boa. T√° a√≠, Milton seria um dos meus homenageados do meu festival.

- Que m√ļsica voc√™ gostaria de ter feito, por admirar tanto?
Eu n√£o tenho isso. Eu acho lindas e admiro alguns sons mas, n√£o a ponto de querer ter feito.

- M√ļsica te ajuda no processo de composi√ß√£o?
Normalmente¬†a inspira√ß√£o n√£o √© a m√ļsica. Essa √© a verdade. 80% do que eu fa√ßo vem de acontecimentos, vem de homenagens e a m√ļsica, na verdade, j√° √© fonte inspiradora, porque estou sempre estudando, ouvindo, mas na hora de compor eu tento fazer como se fosse um retrato da minha vida. Pequenos retratos do sentimento.

- Tem m√ļsica ou m√ļsico que te ajuda em um dia triste? Muda seu humor?
Muda muito! A m√ļsica, ela tem um poder de cura at√©.¬†Tinha uma √©poca em que eu pegava o viol√£o, se estava meio triste, e tocava uma m√ļsica do Chico Buarque e do Cristov√£o Bastos, chamada ‚ÄúTodo Sentimento‚ÄĚ. √Č uma m√ļsica que me d√° um conforto.

- Capa de disco que você acha muito bonita?
Mod√©stia √† parte, as capas dos meus discos s√£o lindas. Os caras que trabalham comigo s√£o feras. Em espec√≠fico a √ļltima, do show que estou fazendo ultimamente.
De outros artistas, do Nirvana, do neném mergulhando [Nevermind], acho foda. Aquela capa da vaca do Pink Floyd [Atom Heart Mother]. Tem uma capa do Nó Em Pingo D’água, que o Celsinho toca, que é uma gota, quem fez foi o Elifas Andreato. Tem outra do Elifas que é doMemórias Chorando, do Paulinho da Viola, que é foda também. A do Tom Zé, que tem uma bolinha de gude [Tom Zé Todos os Olhos] que é muito hilária [risos].

- E videoclipe que te marcou?
Engra√ßado, n√£o sou muito ligado a videoclipe, n√£o. N√£o tenho muito costume. At√© fiz um ano passado do¬†Bossa Negra, que √© um trabalho que eu tenho com o Diogo Nogueira, mas n√£o sou muito ligado, cara‚Ķ Tem um clipe do Pat Metheny, um guitarrista americano, que chama ‚ÄúLast Train Home‚ÄĚ que √© muito legal, da d√©cada de 80, com aquelas cal√ßas na barriga [risos].

- Um choro especial pra você?
Ah, ‚ÄúVibra√ß√Ķes‚ÄĚ!

- Para viagens, você prepara playlist?
Eu ganho muitos discos, ent√£o eu fico tentando de alguma maneira passar esses discos para o computador e ouvir no celular pra poder ouvir. √Äs vezes eu boto uma playlist de m√ļsica mais calma, √†s vezes uma para dar uma corridinha. Depende do dia.

- Qual foi sua descoberta musical mais recente?
Foi uma cantora l√° da Gal√≠cia, que chama Silvia P√©rez Cruz. √Č uma cantora espetacular. Uma das coisas mais bonitas que ouvi ultimamente.

- Hamilton, para finalizar, quem você sugere para uma entrevista no Motif?
Vocês podiam entrevistar o Toninho Horta.