HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Arquivo do mês: março 2016


Hamilton de Holanda é finalista da segunda edição do prêmio profissionais da música

FINALISTAS DA SEGUNDA EDIÇÃO DO PRÊMIO PROFISSIONAIS DA MÚSICA

É com muito prazer que disponibilizamos a lista completa com os 117 finalistas das 39 categorias da segunda edição do Prêmio Profissionais da Música 2016.

De amanhã [15 de março] até o dia 20 de março, os jurados convidados e já divulgados em nosso site, avaliarão os trabalhos encaminhados no ato da inscrição dos respectivos finalistas, e assim concluir o processo de votação que se iniciou com o voto dos profissionais cadastrados e inscritos e posteriormente com o voto do público, que se encerrou na noite de ontem após 4967 votos computados.

Os resultados finais serão anunciados nas cerimônias de premiação que acontecerão, nos dias 2 e 3 de abril de 2016, nas instalações do Teatro Brasília na capital do Brasil; e onde, os escolhidos do ano receberão o troféu Fernando Brant.

Ressaltamos que o evento, com entrada franca mediante retirada de ingressos, acontecerá entre os dias 1º e 3 de abril com uma farta programação incluindo: exposição sobre Fernando Brant, rodadas de negócios, painéis, talkshows, workshops e  showcases.

Ao mesmo tempo em que agradecemos todos que se inscreveram, participaram, colaboraram e votaram; reforçamos os votos de encontrá-los em Brasília nos próximos dias 1, 2 e de abril de 2016, e assim curtir os finalistas, compartilhar informações, gerar oportunidades e prestarmos uma grande homenagem a Fernando Brant.

Prêmio Profissionais da Música 2016 | da Criação à Convergência | #ppm2016

MODALIDADE CRIAÇÃO

Autor
Pitty
Eduardo Gudin
Thiago Amud

-

Instrumentista
Hamilton de Holanda | Bandolim
Ricardo Valverde | Vibrafone
Marcelo Camargo Mariano | Baixo

-

Cantor
Pedro Sá Moares
Alex Gonzaga
Rafael Cury

-

Cantora
Verônica Ferriani
Pitty
Karina Buhr

-

Arranjador
Siba
André Vasconcellos
Fábio Peron

-

Hip-Hop
Lurdes da Luz
Atitude Feminina
Viela 17

-

Gospel
Banda Catedral
Oficina G3
Anayle Sullivan

-

Instrumental
Afrojazz
Panorama do Choro Paulistano
Funqquestra

-

Rock’n Blues
Adriano Grineberg
Rio Claro
André Prando

-

Metal & Hardcore
André Moraes
As Verdades de Anabela
John Wayne

-

Groove & Pop
Surf Sessions
Seu Preto
Aláfia

-

Raiz Regional
Chico Lobo
João Triska
Claudio Lacerda

-

MPB
Mariana Baltar
Nô Stopa
Roberta Campos

-

Folclore e Cultura Popular
Trio Nordestino
Chico Lobo
Mawaca

-

Samba Choro
Bia Goes
Paula Sanches
Galo Cego

-

MODALIDADE PRODUÇÃO

Editora
Deck
Azul Music
YB Music

-

Produtor Artístico
Fernando Anitelli
Conrado Goys
Marcos Portinari

-

Produtor Executivo
Sérgio Mendonça
Paulo Almeida
Genildo Fonseca

-

Selo ou Gravadora
Pôr do Som
Sonora
Deck

-

Egenheiro de Gravação
Lindenberg Oliveira
Carlos Cacá Lima
Rodrigo Lopes

-

Engenheiro de Mixagem
Ricardo Mosca
Bernardo Goys
Daniel Musy

-

Engenheiro de Masterização
Carlos Freitas
André Dias
Betho Ieesus

-

Designer
Karla Pê
Alexandre Magno
Karina Santiago

-

Fotógrafo
Stela Handa
Alexandre Magno
Karina Santiago

-

Diretor de Vídeo Clip
Camila Inês
Rafael Kent
Igor Damasceno

-

Produtor de Eventos
Laura Lopes
Luciana Pegorer
Mariana Martinez

-

Estúdio de Gravação e Mixagem
BongÔMusics
YB Music
Estudio 185 Apodi

-

Estúdio de Masterização
Classic Master
Sun Trip Mastering
Post Modern Mastering

-

MODALIDADE CONVERGÊNCIA

Distribuidora Digital
Believe Digital
CD Baby
OneRPM

-

Festival de Música
Festival Porão do Rock
Festival de Arte e Cultura de Cavalcante
DMX Awards

-

Start Up
Revista Acorde!
Sympla
NetShow.Me

-

DJ
Rodrigo Lobbão
DJ Craca
DJ GustavoFK

-

Projeto Cultural Musical
Concerto Secreto – Orquestra Petrobras Sinfônica
I\I’ll Be There/ Homenagem a Michael Jackson
Caravana Sotaques do Brasil – Circuito de Arte e Cultura CPFL

-

Canal de Divulgação de Música
ShowLivre.Com
Blog e Site Cult 22
SomosMusica

-

Programa de TV ou WebTV
ShowLivre
Onde anda a canção?
Sotaques do Brasil

-

Web  Rádio
Radio Federal
Vibe FM Brasil
Rádio Graviola

-

Programa de Rádio
Programa é Papo Firme
Cultura Vibe
Cult 22 Transamérica

-

Canal do YouTube
ShowLivre
Pôr do Som
Projeto Studio62

-

Plataforma de Negócios
SIM São Paulo
Rio Music Buzz
Corinthians by Napster

Carta de Herbie Hancock e Wayne Shorter para novos músicos e artistas

Herbie Hancock e Wayne Shorter, duas entidades vivas do jazz e da música mundial, escreveram uma espécie de carta-manifesto direcionado aos novos músicos e artistas. A carta traz mensagem com conselhos direcionados a quem trabalha com arte, mas basicamente vale pra todo mundo. Leia:

Para as próximas gerações de artistas,

Nos encontramos em tempos turbulentos e imprevisíveis.

Do horror no Bataclan, à insurreição na Síria e o derramamento de sangue sem sentido em São Bernardino, vivemos em tempos de grande confusão e sofrimento. Como artistas, criadores e sonhadores deste mundo, pedimos para que vocês não se desanimem com o que veem e que usem suas próprias vidas, e – por consequência sua arte – como veículos para a construção da paz.

Por mais que seja verdade que os problemas enfrentados pelo mundo sejam complexos, a resposta para a paz é simples: ela começa com você. Você não precisa morar em um país do Terceiro Mundo ou trabalhar em uma ONG para fazer a diferença. Cada um de nós possui uma única missão. Somos todos peças de um quebra-cabeça gigante, fluído, onde a menor das ações feita por uma das peças afeta profundamente todo o resto. Você é relevante, suas ações importam, a sua arte importa.

Gostaríamos de deixar claro que por mais que esta carta esteja sendo escrita para um público artístico, estes pensamentos transcendem limitações profissionais e se aplicam a qualquer pessoa, independente da sua profissão.

EM PRIMEIRO LUGAR, DESPERTE A SUA HUMANIDADE

Nós não estamos sozinhos. Não existimos sozinhos e não podemos criar sozinhos. O que este mundo precisa é de um despertar humanista do desejo de melhorar as condições de vida de uma pessoa ao ponto que suas ações sejam enraizadas em altruísmo e compaixão. Você não pode se esconder por trás de uma profissão ou instrumento; você tem que ser humano. Concentre suas energias para se tornar o melhor ser humano que puder. Concentre-se no desenvolvimento da empatia e da compaixão. Inseridos neste processo, vocês conseguirão ter acesso a um tesouro de inspiração proveniente da complexidade e curiosidade do que significa simplesmente existir neste planeta. Música é somente uma gota no oceano da vida.

ADOTE E CONQUISTE O CAMINHO MENOS PERCORRIDO

O mundo precisa de novos caminhos. Não permitam ser sequestrados pela retórica comum, ou por falsas crenças e ilusões sobre como a vida deveria ser vivida. Cabe a vocês serem pioneiros. Seja pela exploração de novos sons, novos ritmos e harmonias ou colaborações inesperadas, processos e experiências, nós queremos encorajá-los a banir repetições em todas as suas formas e consequências negativas. Lute para criar novas ações tanto musicalmente quanto em relação ao sentido da sua vida. Nunca se conforme.

DÊ BOAS-VINDAS AO DESCONHECIDO

O desconhecido requer uma improvisação diferente a cada novo momento ou um processo criativo inigualável em potencial e satisfação. Não há ensaio geral para a vida porque a vida propriamente dita é o real ensaio. Cada relacionamento, obstáculo, interação, etc. é o ensaio para a próxima aventura na vida. Tudo está conectado. Tudo constrói. Nada é desperdiçado. Este tipo de pensamento requer coragem. Sejam corajosos e não percam seu senso de excitação e reverência por este mundo maravilhoso ao nosso redor.

ENTENDA A VERDADEIRA NATUREZA DOS OBSTÁCULOS

Nós temos esta ideia de fracasso, mas ela não é real; é uma ilusão. O fracasso não existe. O que você percebe como fracasso é, na verdade, uma nova oportunidade, uma nova mão de cartas ou uma nova tela sobre a qual se cria. Na vida, as oportunidades são ilimitadas. As próprias palavras‘sucesso’ e‘fracasso’não passam de rótulos. Todo momento é uma oportunidade. Vocês, como seres humanos, não têm limitações; com isso, existem possibilidades infinitas em qualquer circunstância.

NÃO TENHA MEDO DE INTERAGIR COM AQUELES QUE SÃO DIFERENTES DE VOCÊ

O mundo precisa mais de interações cara a cara entre pessoas de diferentes origens com grande ênfase em arte, cultura e educação. Nossas diferenças são o que temos em comum. Podemos trabalhar para criar um espaço onde todos os tipos de pessoas possam trocar ideias, referências, considerações e gentilezas. Precisamos nos conectar uns aos outros, aprendendo com e sobre os outros e experimentando a vida mutualmente. Nunca conseguiremos ter paz se não compreendermos a dor nos corações do próximo. Quanto mais interagirmos, mais rápido perceberemos que nossa humanidade transcende todas as diferenças.

LUTE PARA CRIAR DIÁLOGOS LIVRES DE AGENDAS PRÉ-ESTABELECIDAS

Qualquer forma de arte é um meio para o diálogo, o que já faz dela uma ferramenta poderosa. Já está na hora do mundo da música produzir boas histórias que iniciem diálogos sobre o mistério em nós. Quando dizemos ‘o mistério em nós’, estamos falando sobre desafiar e refletir sobre nossos medos que nos impede de descobrir o acesso ilimitado à coragem inerente a todos nós. Sim, você é o suficiente. Sim, você é o suficiente. Sim, você importa. Sim, você deve continuar.

TENHA CUIDADO COM O EGO

A arrogância pode ser desenvolvida pelos artistas, ou por aqueles que acreditam que o status faz com que sejam mais importantes, ou pelos que por associação com uma área criativa se sentem dignos de algum tipo de superioridade. Cuidado com o ego; a criatividade não consegue fluir onde somente o ego é nutrido.

TRABALHE POR UM NEGÓCIO SEM FRONTEIRAS

A área médica possui uma organização chamada Médicos Sem Fronteiras.  The medical field has an organization called Doctors Without Borders. Este esforço admirável pode servir de modelo para transcender as limitações e estratégias das antigas fórmulas de negócios que são desenhadas para perpetuar sistemas obsoletos disfarçados de novos modelos. Estamos falando diretamente com um sistema que está estabelecido, um sistema que condiciona os consumidores a comprar somente os produtos que são julgados comerciais, um sistema onde o dinheiro é o único meio para os fins. O negócio da música é uma fração do negócio da vida. Viver com integridade criativa pode trazer benefícios futuros nunca imaginados.

VALORIZE A GERAÇÃO QUE VEIO ANTES DA SUA

Os mais velhos podem te ajudar. Eles são uma fonte de riquezas em forma de sabedoria. Eles já passaram por tormentas e sofreram decepções: deixe que suas lutas sejam a luz que clareia o caminho da escuridão. Não perca tempos repetindo os erros que eles cometeram. Ao invés disso, pegue o que eles já fizeram e catapulte essas ideias em direção a um mundo progressivamente melhor para a posteridade.

FINALMENTE, ESPERAMOS QUE VOCÊ VIVA EM UM ESTADO DE CONSTANTE DESLUMBRAMENTO

Com o acúmulo dos anos, partes da nossa imaginação tende a apagar. Ou por tristeza, dificuldades prolongadas, ou condicionamento social, em algum momento de suas vidas as pessoas se esquecem de como acessar esta mágica inerente que existe dentro de nossas mentes. Não deixe esta parte da sua imaginação desaparecer. Olhe para as estrelas e imagine como seria ser um astronauta ou um piloto. Imagine explorar as pirâmides ou o Machu Picchu. Imagine poder voar como um pássaro ou passar por uma parede como o Super-Homem. Imagine correr com os dinossauros ou nadar com criaturas do mar. Tudo o que existe é produto da imaginação de alguém; cuide bem e nutra sua imaginação e você sempre se encontrará à beira da descoberta.

Como cada um desses fatores levam à criação de uma sociedade pacífica? – você deve estar se perguntando. Tudo começa com uma causa. Suas causas criam os efeitos que moldam o seu futuro e o futuro de todos ao seu redor. Sejam os protagonistas no filme de suas vidas. Vocês são os diretores, os produtores e os atores. Sejam ousados e incansavelmente benevolentes enquanto dançam pela viagem que é esta vida.

Herbie Hancock & Wayne Shorter

(Tradução: Babi Mendes)

“Não é só música” – O bandolim de Hamilton de Holanda: 10 cordas e um destino

Hamilton de Holanda é um dos músicos mais profícuos do Brasil. A quantidade de projetos e parcerias nas quais está envolvido chega a assustar, mas espanta menos que a constatação de que em todos eles, o nível de qualidade é máximo.

No dia seguinte, encontrei com Hamilton no saguão de um hotel na zona norte de São Paulo. Hamilton chegou acompanhado de Marcos Portinari, que participou do bate-papo. Após uma rápida troca de cumprimentos e a escolha da mesa onde sentaríamos, peço licença para começar e aperto o REC:

Fui ao show de ontem (25 de janeiro) no Sesc Belenzinho. Eu já havia assistido a dois shows seus  anteriormente: No auditório do Memorial da América Latina, com o Yamandú Costa, e outro em 2011 num teatro em Buenos Aires.

Aquele show foi ótimo. Lembro que terminei com uma música do Piazzolla…

Esta formação nova. O Marcelo Caudi não é o mesmo Marcelo do outro trio, né??

Não, na verdade Marcelo é outro músico. Porque eu tenho outro trio, com o qual eu gravei um disco no ano passado que ganhou prêmio da Música Brasileira no ano passado, que é o André Vasconcelos (baixo)  e o Thiago da Serrinha, que é o percussionista. E este é um outro trio. Na verdade, esta possibilidade de mudar, e criar, eu uso ela sempre. Então, pintou esta oportunidade de fazer um show com uma formação diferente… O Caldi eu já conheço porque ele toca no Baile do Almeidinha. E o Guto (Wirtti, baixista) também conheço há muito tempo, ele também toca no Baile do Almeidinha. Gravei um disco que vai sair agora em março chamado Samba de Chico, só com músicas do Chico Buarque, que é com o Thiago da Serrinha e o Guto Wirtti no contrabaixo. O André Vasconcelos, que é daquele outro trio, também participou do disco…

Hamilton de Holanda e Guto WirttiHamilton de Holanda e Guto Wirtti

Assim como o Guto, ele também é baixista. Ele toca em quantas faixas?

Em três. Tem a participação do próprio Chico Buarque também, que canta duas… A Sílvia Pérez Cruz, que é uma cantora da Catalunha, canta duas também, e o Stefano Bolanni, que é um pianista italiano, toca duas.

E todas serão cantadas?

Não, só as que tem participação, o resto é instrumental, misturado mesmo.

Quer dizer que o Hamilton de Holanda Trio é mais um formato que um grupo definido?

Originalmente ele é com o André e o Thiago, que é o trio do disco que a gente ganhou (o prêmio da Música Brasileira), mas a coisa vai andando, e vão aparecendo oportunidades… Você às vezes está no camarim, aí toca e fala “pô, que legal que ficou este som”,  “ah, vamos fazer um show disso”, sabe? Na música você sabe como é que é, a convivência é muito livre, você tem esta questão de querer criar sempre, e tudo… e inventar alguma coisa nova… Fazer o mesmo do novo e o novo do mesmo sempre. Isso é um ciclo constante. E aí, neste caso, é o trio. Na verdade, foi o primeiro show que eu fiz com este trio, ontem. Gostei bastante, deve virar alguma coisa, vamos ver se a gente grava…

E houveram ensaios? Como foi o preparo?

Olha, eu dei uma passada com o Marcelinho, dei uma passadinha assim, no repertório, mas ensaio mesmo, não teve não. Eles já conheciam as músicas, o Guto já tinha tocado algumas também, outras a gente deu uma passada ali. Mas é um trabalho que tem um potencial de amadurecer também, a gente viu que “no susto”, numa primeira, já ficou bem bacana… E aí, o tempo vai burilando, e aparando as arestinhas todas.

Esta brincadeira que você faz no final, fazendo um medley de clássicos da MPB, é de acordo com o que pedem na hora?

É, a gente vai costurando ali, brincando. É uma maneira de chegar mais perto do público, também.

E o Sesc é um lugar bacana de tocar, né? Um público sempre atencioso…

Muito bom, muito bom, muito bom. Eu adoro tocar no Sesc. Aqui em São Paulo, inclusive, que faz aniversário hoje… Eu agradeço São Paulo porque tem este circuito muito legal do Sesc, tem vários teatros, várias casas, muita coisa bacana, e o Sesc é uma parte especial, também.

Como surgiu a ideia de gravar o disco com sambas do Chico, e como foi realizada a escolha do repertório?

Olha, as músicas do Chico eu já toco há algum tempo, eu tocava nos shows já, bastante. Tocava Sinhá,  O Que Será, esta inclusive eu gravei… É um disco que gravei com o Bolanni, que saiu pela ECM, gravadora alemã… Vai Passar, também, no Baile do Almeidinha… Enfim, sempre recorria a uma musiquinha do Chico… E aí quando a gente viu, pô, estava com um repertório que dava pra fazer alguma coisa, eu podia escolher mais algumas músicas… E nisso surgiu a ideia de fazer o disco com músicas do Chico. Mas aí foi afunilando e quando fui ver, já tinha um monte de sambas (risos), e aí virou Samba de Chico.

Baile do Almeidinha - Circo VoadorBaile do Almeidinha – Circo Voador, Rio de Janeiro (RJ)

E como é o projeto Baile do Almeidinha?

Este é um projeto que já tem três anos, vai fazer quatro, já… que acontece no Circo Voador com um banda grande, a gente até brinca e chama de Orquestra, o pessoal lá chama de “A Magnífica”, tem o Edu Neves na flauta e no sax, o Aquiles Moraes no trompete, Rafael dos Anjos no violão, Xande Figueiredo na bateria, Thiago da Serrinha na percussão, Guto Wirtti no baixo e o Caldi na sanfona. É uma festa na verdade, é um baile, alegria… O fundamento da história ali é o ritmo, pras pessoas dançarem, e a alegria. É um repertório que vai de Tom Jobim a Luiz Gonzaga, o próprio Chico, que citei… Muita música alegre, boa pras pessoas dançarem, a gente canta, às vezes a gente puxa uma música que tem letra, e aí as pessoas cantam com a gente, vira um karaokê coletivo, muito bacana… Sempre tem convidados, também, é um evento que tem convidados variados, desde o Arlindo Cruz, passando pela Maria Gadu, Zélia Duncan, Alcione, Beth Carvalho… tanta gente legal que já foi lá… Instrumentistas, também… Yamandú, Carlos Malta, Gabriel Grossi, Jaques Morelenbaum… Enfim, é um projeto eu diria que agregador, ele junta as pessoas por um motivo musical.

Também já espaço pra músicas autorais neste trabalho?

A gente gravou um disco autoral! Grande parte do show é autoral, a gente foi compondo… Então a gente gravou, inclusive este disco foi indicado como melhor engenharia de áudio pro Grammy Latino, este último agora, de 2015. Pra mim é muito legal, é alegria. Porque a música não é só alegria, né? Ela é tudo, são todos os sentimentos, ela não tem limites. Mas a alegria é tão importante pra gente, né cara? Então este projeto entra num lugar muito especial, de emanar coisas boas.

Músicas tristes não cabem neste projeto, então…

Até cabem! Porque o samba lida com isso de uma maneira muito boa. Bixo, o ritmo, a percussão, às vezes tá “comendo”, e o cara tá cantando uma letra triste… “O sol há de brilhar mais uma vez”… Nelson Cavaquinho é craque nisso, você ouve aquela canção que tem aquela coisa emocional, emotiva, mas ao mesmo tempo, a vida vai, o ritmo vai… Então, o Almeidinha entra neste lugar dentro da minha carreira.

E estes shows tem sido registrados de alguma maneira?

Documentalmente sim, filmam todos. O Circo filma todos os bailes, acho que já são quase cinquenta. E é um projeto que a gente criou, eu, o Portinari, e a Jussá, muito ali na empolgação de estar fazendo outros shows no Circo, e ali nos bastidores “Pô, vamos fazer um baile…”, e deu certo pra caramba.

Portinari: É considerada a maior festa de música ao vivo do Rio de Janeiro. Sendo um músico instrumental que está à frente, é um fato bacana, não usual.

Hamilton: Legal também às vezes fazer músicas diferentes, porque vai de Marcelo D2, Beth Carvalho… A gente outro dia fez um tributo ao Paco de Lucia, quando ele morreu, tocamos música flamenca bailada. E isso acaba que dentro de uma única noite, você ouve meio que uma grande saladona, mas funciona, é uma coisa que na noite, na alegria, funciona bem.

Portinari: E tem um espírito de praia, no sentido de que é democrático, na praia tem os gays, os mais velhos, os jovens, as gatinhas…

Hamilton: e o nosso público é assim, vai todo mundo. Vai muito estrangeiro, porque o Circo Voador é embaixo dos Arcos da Lapa, então ali vai muito estrangeiro. Ano passado mesmo a gente foi tocar na França, estava andando na rua e veio uma mulher “não acredito, estou vendo o Almeidinha aqui” (risos). São pessoas que já foram, a notícia corre…

Capa do disco Bossa Negra, com Diogo NogueiraCapa do disco Bossa Negra, com Diogo Nogueira

Você é um cara de múltiplos projetos, grava com vários artistas, participa de discos, grava os seus próprios. Fale um pouco sobre a parceria com Diogo Nogueira, o projeto Bossa Negra.

A gente fez o último show em dezembro do ano passado, devem rolar mais shows ainda, a gente não fechou a tampa, não. Principalmente porque está sendo editado um documentário. Fizemos uma turnê em julho e agosto do ano passado, foi filmada toda, e aí tá sendo feita agora a montagem deste documentário. A gente ganhou prêmio de melhor música brasileira, a música Bossa Negra, composição minha, do Marcos e do Diogo.

Grammy Latino - Hamilton de HolandaA música Bossa Negra ganhou o Grammy Latino de Melhor Canção Brasileira em 2015

Que bacana!

Foi muito legal, a turnê foi um negócio espetacular, foi uma das turnês mais legais, foram 45 dias passando por 16 países.

E quando este documentário será lançado?

A gente tá pensando pra outubro, mas não sei ainda, vai depender do processo, que é diferente. A gente tá acostumado mais com áudio, áudio a gente começa e termina, agora o vídeo, são muitos detalhes. A gente também não tem pressa, porque é um projeto paralelo, tanto nosso quanto deles, então vai rolando…

Portinari: E esta pergunta tua, a gente encontrou na multiplicidade de projetos o nosso caminho. Nosso caminho é ser multi.

Isso é muito legal, a própria coisa de se ter múltiplas influências, acho que só enriquece a criação musical…

Eu me considero um músico brasileiro acima de tudo, mas gosto de música. Antes de ser músico brasileiro, eu sou músico, assim, de ouvir. Quando uma melodia sai de você, ela não tem nacionalidade, ainda. Só de você diz “ah, vou fazer um samba, agora”, aí vem o ritmo. Mas se você canta uma melodia solta, a melodia é universal, a música é uma linguagem universal, então eu tento dentro do meu dia a dia trabalhar com isso. Sou um músico brasileiro, mas posso ir pra Suécia, e fazer um show com meus amigos do Wassen, tocar polska, que é um estilo primo do chorinho, o chorinho de alguma maneira tem  DNA desta turma lá, também. Então a gente vai conectando esta grande teia e tocando a vida em frente.

Queria que você falasse um pouco sobre seu processo composicional. Geralmente, a melodia surge o com instrumento na mão? Ou acontece de estar andando, de bobeira, e vir uma melodia à cabeça?

Pô Ricardo, de tudo. Isso que você falou e ainda tem mais outras(risos). À noite, estou em casa… Celular está aqui, estou no volante dirigindo… Tem uma coisa que eu faço muito, que é ir correr na praia, quando eu volto, ao invés de subir de elevador, eu subo de escada, e gravo uma melodia ali, subindo a escada… qualquer hora é hora.

E depois da ideia original tem todo o processo de trabalhar aquilo, né?

Aí depende do nível de inspiração. Você às vezes tem um nível de inspiração que a música vem perfeitinha, você não precisa burilar. E tem outras que vem ideias, aí vem um pedacinho de ideia… Aí tu guarda uma, às vezes guarda outra, vai juntando ali…

Portinari: A gente fez uma turnê agora que chama Pelo Brasil, do último disco que a gente lançou… que ele fazia uma música ao vivo em cada show.

Hamilton: Era uma parte do show, que foi quase que teatral, porque a gente fez o roteiro perfeitinho, só que tem que ter algum momento de extravasar (risos). E aí a gente escolheu um pedaço do show lá pra frente…

Portinari: E mostrar também, pro público, como é que funciona…

Hamilton: Mostrando pro público como funciona isso, esta coisa da inspiração, como pode vir, como não vem… Então em cada um destes 30 shows, eu fiz uma coisa diferente, ali, na hora. Tem algumas que saíram músicas perfeitas, com começo, meio e fim, e outras que era um improviso legal, e que dali pode virar uma música, também.

Portinari: Foi muito legal que, pra fazer isso aí, lógico que teve um patrocínio, a gente conseguiu um patrocínio da Petrobras, que nos permitia fazer shows abertos tipo pré-produção, então pudemos fazer aberto pro público e depois amarrar pra ficar mais bacana ainda.

Hamilton: vai sair até um DVD disso também, de graça, que faz parte do projeto. Cada projeto tem uma realidade, e dentro disso, o Bandolim une tudo. As minhas ideias, as ideias do Portinari, que trabalha também 24 horas pensando no bandolim, e o bandolim faz a rede.

Portinari: Ainda dentro deste assunto, você podia falar um pouco do capricho.

Hamilton: A fundação do capricho é a seguinte, não tinha biblioteca pra estudar o instrumento… É o bandolim de 10 cordas, eu tive esta ideia… mas foi também espontâneo não foi “ah, vou criar uma coisa”, porque acho que não é assim. Mas eu fui fazendo, a única coisa que comecei e me comprometi, era gravar todo dia durante um período coisas espontâneas com a voz, ia cantando uma melodia (cantarola uma melodia), aí fui gravando, gravando, e comecei a gostar, e comecei a fazer a mesma coisa com o bandolim, aí quando eu fui ver já tinha feito 14, eu falei, bixo, isso aqui tem a ver com bandolim, tem a ver com a técnica e tem a ver com o lance da musicalidade, também. Aí pensei, ah, estes são os caprichos. Fui até o número 24, porque o nome foi uma referência ao Paganini, ele fez os 24 caprichos. Na verdade, este nome, capricho, é bem conhecido no universo da música clássica, e aí fiz 25 e falei “não, chega”, e ficou 24 (risos).  E cada um tem uma sonoridade, um sabor, um tipo de técnica, se você olhar especificamente pro bandolim, tem caprichos que compus em tons que não são comuns pra este instrumento, justamente pra explorar sonoridades diferentes. No caso, é o bandolim de 10 cordas, então tem técnicas de polifonia onde eu faço primeiro três arpejos, aí depois eu faço a melodia, dois arpejos, melodia, e isso aí vai se completando. Outras, coisas que faço harmonização em bloco, porque aí você ouve o todo, cada um tem uma coisinha. A técnica por exemplo de um que toquei ontem, oCapricho de Santa Cecília, é uma técnica de troca de corda, um negócio dificílimo assim, que você ouve e nem parece, porque era um objetivo também, que a música fosse um desafio, pra melhora da técnica, mas que passasse a musicalidade, a melodia entrasse no ouvido como uma coisa normal, não como um exercício. E deu muito certo, a gente entrou com um projeto na Funarte, ganhamos o prêmio, em 2012 ou 2013, aí que nos deu a possibilidade de expandir ainda mais isso, porque virou mundial, e é uma coisa de graça, a gente tem as partituras todas de graça lá, os áudios…

Portinari: Entra em hamiltondeholanda.com/caprichos, que a pessoa pode baixar tudo isso de graça.

Capa do disco "Caprichos", disponível para download no site de HamiltonCapa do disco “Caprichos”, disponível para download no site de Hamilton

Hamilton: Então assim, não é uma aula, não é um workshop, não é uma coisa formal, educacional. Mas ao mesmo tempo, eu sou formado na UNB, estudei a minha vida inteira, e acho que podia fazer uma coisa que chegasse nas pessoas comuns, mas que quem quiser estudar, olhar pelo olhar do estudo, da melhoria musical, mergulha que vai achar conchinhas e umas coisas legais. Estrela-do-mar, cavalo marinho (risos).

Portinari: E só pra completar, dá pra baixar o pdf da partitura, como ele escreveu, e tem um sistema que o xml, que é uma extensão de arquivo que pode ser aberta em qualquer programa, pode ser aberta no Finale, no Sibelius… E arranjar 4 guitarras, 2 pianos, pode criar formações…

Hamilton: Quer dizer, a gente deixou aberto pra quem quiser brincar, e o resultado é que tem gente do mundo inteiro tocando, a gente recebe direto vídeos… Muito legal. E o fundamento da música brasileira, claro, o que eu fizer vai ser música brasileira, mas ao mesmo tempo tem o Capricho de Espanha, tem o Capricho do Oriente, que tem uma sonoridade meio oriental, do oriente médio, vamos dizer assim, aquelas escalas diferentes, e tal…

Portinari: E uma coisa legal, é que as pessoas procuram o disco do Caprichos pra tocar, está de graça na internet, pode baixar em alta resolução, a mesma do CD, mas as pessoas querem ter. Ontem acabou, tinha uns poucos e acabou.

O capricho então, em termos musicais, não tem tanto algo que o defina enquanto estilo, ele é mais uma forma aberta?

Exato, ele é exatamente isso. Resumidamente, uma forma aberta. Livre, vamos dizer assim. Uma estrutura livre, e você retratar alguma coisa a partir daquela estrutura livre que você inventar. Tanto que se você pegar o Capricho Espanhol do Rimsky Korsakov, ele tem uma estrutura que é a dele  própria, se você pegar os caprichos do Paganini, cada um é de uma maneira.

Portinari: É um “capricho”, eu faço do jeito que eu quero (risos).

Hamilton: E vou te dizer que foi um divisor de águas na minha vida, pra sempre. Uma coisa definitiva, porque qualquer coisa que eu fizer, seja muito popular, seja muito erudita, tem essa essência, tem aquilo ali. Primeiro de tudo, eu preciso entender a multiplicidade e as mil possibilidades que o bandolim pode gerar. E depois aí tem as outras coisas.

Portinari: Ele falou um negócio que pra mim resume o Hamilton: Eu o acho um cara muito preparado, musicalmente, pode ir no erudito, falar com a orquestra, entender a partitura… Ele pode não ter a leitura de um músico de orquestra, mas ele lê, e ele vai lá no Pagode do Arlindo, se divertir, tomar uma cerveja, abraçar os amigos e fazer um som.

Hamilton: A minha essência como artista passa por isso. Às vezes acho que pode ser até difícil pro público entender, uma porrada de trabalho… Outro dia, um fã falou “bixo, assim eu não tenho dinheiro pra comprar todos os seus discos…” (risos). Mas o que se vai fazer, travar o fluxo criativo? Não pode… Então a gente tenta, pensando do ponto de vista do trabalho com a música, fazer com que as coisas tenham um sentido e isso seja um caminho.

Portinari: E a gente já percebeu, falando com as maiores gravadoras do mundo, do jazz, os caras ficam “nossa, mas três discos? Isso é inadmissível, o nosso é muito melhor”, a imprensa também demorou pra entender, “pô, já te demos espaço pra falar de você aqui, vamos dar de novo?”. Hoje em sai, como foi uma coisa constante, não foi uma coisa de verão, aí agora pensam “ah, o cara pode lançar três discos”. E serem bons, os três.

A contribuição pra escola do bandolim é muito grande, você aumentou o repertório disponível, expandindo as possibilidade do instrumento.

Ah cara, isso pra mim é a maior alegria, receber um e-mail de um cara lá da França, “Vê este vídeo aqui, eu tocando um capricho”. Isso não tem preço.

Portinari: Aconteceu um negócio foda ontem no show.

Hamilton: É, uma mulher veio falar comigo, que estava muito doente, hospitalizada, e com uma depressão muito profunda. E aí ela veio pra mim dizer que assistiu o show do Bossa Negra, que ela mudou, começou a melhorar, que está praticamente curada, que depois ela passou a ir em outros shows meus… Como se minha música a tivesse curado.  Uma coisa destas não tem preço.

Muito gratificante.

Muito. Na verdade, eu faço música pra isso. Este é o principal, que aquilo que me faz bem, que me cura, possa também fazer bem e curar outras pessoas. E aí as outras coisas vão chegando junto, porque é aquilo que a essência do seu site, que você estava me contando: A música não é só música, são outras coisas, e enfim… é isso.

O bandolim de 10 cordas de HamiltonO bandolim de 10 cordas de Hamilton

E o lance das duas cordas extras no bandolim? Quando surgiu esta necessidade e como foi o processo de concretizar sua ideia?

Olha, o processo começou uns 3 ou 4 anos antes, até mais… Porque quando eu comecei a tocar violão, minha vida mudou. Eu comecei a tocar bandolim com cinco anos, tirava umas coisinhas em casa, que meu pai tocava violão, mas comecei a aprender mesmo, com professor, com uns 13, 14 anos, e aí minha vida mudou, porque eu comecei a ver que a música não era só a melodia que eu tocava no bandolim. Até então, eu era um melodista, dentro do universo do choro. Que é muito bom também, não estou diminuindo, estou dizendo que pra mim foi uma abertura de mente muito grande aprender a tocar o violão. E dali eu comecei a querer fazer também no bandolim, entendeu? A harmonia, os acordes com a melodia, com o ritmo, comecei a querer fazer no bandolim. Fazia no bandolim, normal, e comecei a sentir necessidade de umas notinhas a mais, pensava comigo mesmo “pô, podia ter umas notinhas a mais…”, uma coisinha mais grave aqui, umas notinhas a mais… E aí foi simples pro luthier, eu liguei pro Vergilio Lima, que é um grande luthier, lá de Sabará, Minas, e falei com ele, pedi pra ele. Eu já tinha dois bandolins dele, e falei “você não topa fazer um, assim, assim e assado?”. Eu sabia que ele já tinha intimidade com instrumentos de 10 cordas, que ele é um dos maiores, se não for o maior, luthier de viola aqui no Brasil, muito bom. Aí ele topou. Lembro até que fiz um comentário, “faz com madeira baratinha, que se não ficar bom…”, não sabia se ia dar certo, mas acabou ficando muito bom.

É um par de cordas mais grave, então.

Isso, mais grave, mais um par. A afinação do bandolim normalmente, de baixo pra cima, é E, A, D e G (mi, lá, ré e sol). Ela tem mais um C,  grave, que é como se fosse uma mistura de violino e viola.

A afinação é em quintas?

Isso, exatamente.

O bandolim, como você diz, é mais melodista. Mas você tem uma abordagem que mistura melodia e harmonia no improviso. O quanto o par de cordas a mais amplia a possibilidade do instrumento, em termos harmônicos?

A ideia é justamente esta, conseguir ter um som cheio com o bandolim, que o som se aproximasse do que um piano, uma guitarra ou um acordeom fazem, a ideia era me aproximar disso. Não que no outro bandolim você também não possa atingir uma polifonia boa, você pode, mas eu sentia falta de um gravezinho, também. Então este C (dó), é como se fosse o C da terceira casa da corda A (lá) da guitarra. Ali já é um som gravezinho, não é o grave do mizão, mas já é um grave. E ao mesmo tempo, ele é como se fosse a extensão de uma guitarra de 7 cordas. Porque ele é o C e ele tem o mizinho lá na ponta. Geralmente, o violão de 7 cordas o pessoal afina em C, e na guitarra em B (si). Eu às vezes afino em B também, mas geralmente é em C. Então, apesar do instrumento ser pequeno, a extensão é muito grande. Então ele me dá esta possibilidade de fazer uns acordes, que é uma dificuldade do bandolim, porque como ele é afinado em quintas, a posição natural de um C maior, que é C, E, G (dó, mi, sol), a gente não tem no bandolim.

Ficaria inviável montar o acorde…

Exatamente, a digitação fica muito difícil. Então, formar acordes no bandolim é uma coisa difícil, mas ao mesmo tempo, quando você encontra, sai muito diferente, é muito particular. E eu tinha esta busca da harmonia. E aí o ritmo vem a tiracolo, porque o ritmo é a essência, o coração da música.

Você também toca violino.

Já toquei, quando era criança cheguei a estudar o método Suzuki, porque não tinha professor de bandolim lá em Brasília.

Então a ideia era ampliar os horizontes teóricos?

Exatamente. E poder aplicar no bandolim, porque é a mesma afinação.

Como é, hoje, sua relação com outros instrumentos?

Os outros instrumentos são um hobby pra mim. O bandolim é trabalho. E hobby também (risos)! Mas os outros só são hobby. Raramente acontece alguma coisa que eu me meta a fazer outra coisa em outro instrumento. Ano passado mesmo teve uma série de shows chamada Inusitado, lá na Cidade das Artes (RJ), que eu até cantei. Toquei violão tenor, bouzouki, cavaquinho, pandeiro, violão… Mas o meu trabalho é o bandolim, e os outros instrumentos como hobby. Hobby e pra me ajudar. Ano passado eu até comprei um piano, então o piano ajuda no trabalho também, que eu consigo ver as coisas. Aquela facilidade visual do piano, de você ver as teclas, aquilo ali é muito bom pra estudar. Então, os outros instrumentos são hobby e pra estudar.

Você estudou música formalmente, é graduado pela UNB. O quanto esta formação te ajuda na prática, o quão importante foi tê-la feito?

Foi fundamental, eu poder estudar em escolas, na universidade… passei muito tempo da minha vida em escolas de música, tive ótimos professores. Acho que principalmente porque você estudar formalmente, você conhece o que já existe, o que já fizeram. Ou seja, te dá a possibilidade de você não querer reinventar a roda, te dá os fundamentos. O autodidatismo é importante também, você ter curiosidades, você buscar a sua essência, sua linguagem como músico. Agora, o autodidatismo radical, em música, eu acho que talvez limite um pouco. Agora, tem os gênios que, pô, vai dizer o quê de um Djavan, por exemplo? Não vai dizer nada, gênio. E tantos outros músicos… Mas também, você vai dizer o quê de um Leonard Bernstein? O cara se tornou um músico espetacular, estudou pra caramba. E ele é capaz de ouvir qualquer coisa e analisar e te disser tudo que está acontecendo. Porque estudou, então quer dizer, é uma escolha pessoal, claro, mas pra mim, acho que se você estudar é melhor do que se não estudar (risos). Entre o sim e o não, o sim pra estudar. E aí, quem tem a facilidade, vai voar. Porque também é importante você identificar neste processo o tipo de ensino, o tipo de professor, de método, que combina com você. E aí mergulhar nele. Porque tem muita gente que tem dificuldade, acho. Encontra professor que não dá certo, aí fica naquela coisa “ah, ficar estudando escala é um saco!”, realmente, é um saco, mas tem tantas coisas na vida que é um saco e a gente tem que fazer… que estudar escala acaba ficando legal (risos).

E o Quinteto Hamilton de Holanda?

É um grupaço na minha vida, tive a sorte e a alegria de gravar três discos, e me desenvolver musicalmente intensamente nesta época, porque são grandes músicos, foram muito companheiros. E a gente ainda toca de vez em quando, se Deus quiser ainda vamos gravar alguma coisa juntos.

Quinteto Hamilton de HolandaQuinteto Hamilton de Holanda

Voltando ao tema dos trabalhos com outros artistas, como você se coloca em cada uma destas parcerias e projetos?

É bem diferente, porque vamos dizer assim, o seu espaço diminui, mas você multiplica no resultado quando você soma sua arte com alguma outra arte, que dá certo. As colaborações acho que são pra isso, você tira de um lado pra ganhar em outro. Porque quando você toca com uma outra pessoa, em primeiro lugar você tem que saber ouvir, pra aí você poder falar. Falar neste sentido é cantar, ou tocar. Porque aí você entende o espaço onde sua arte pode dialogar com aquela outra arte ali. E isso na verdade acho que é em tudo na vida, acho que a partir do momento em que você é um ser social, vamos dizer assim, é sempre assim, você tem que se adaptar às situações, ter as suas diretrizes, o seus fundamentos, a sua dignidade como pessoa, mas entender que cada situação é uma situação e que dentro daquilo ali você vai se adaptando, vai mostrando as suas opiniões, no caso vai mostrando o seu fraseado, vai mostrando o ritmo que você… né? E aí tem colaborações que viram disco, que vira um, dois… Tem colaborações mais esporádicas, porque não tem como você ser amigo de 200 milhões de pessoas, é impossível, o tempo não deixa, mas quanto mais melhor. Eu penso isso, quanto mais eu puder ter estes encontros, e poder aprender, e ensinar as coisas que eu aprendi… enquanto isso for saudável, eu acho legal.

Como aconteceu a execução de Índios,  da Legião, com uma orquestra?

Isso foi um convite do Rafa (Rafael Ramos), da Dec Disc, produtor. Filho do João Augusto, ele que produziu os Mamonas. Um chegadão, gente boa… E aí convidou, falou “bixo, vai ter um negócio em Brasília, pro Renato Russo, e você tem tudo a ver com Brasília, vai ser lá naqueles estádio, você fica afim de fazer?”. O Renato Russo na verdade é mais poeta que compositor de melodias, mas tem melodias legais, também, com a turma dele. Vou tentar escolher alguma que caiba legal no Bandolim, e eu já gostava de Índios. Gosto de outras músicas também, cresci em Brasília, então a época que eles faziam sucesso, Capital Inicial, Plebe Rude, estas bandas todas, foi a época que eu era adolescente, então eu ouvi, não foi uma coisa que eu tava caindo de paraquedas. “O cara do chorinho lá, tocando Legião, o quê que tem a ver?”, mas eu ouvi, eu cresci em Brasília, então pensei, vai ter uma orquestra, se tiver um momento que ficar só o bandolim e orquestra no meio do rock’n’roll, pode ficar diferente, pode ficar legal.

Ficou muito bonito.

E aí eu falei “vamos nessa, Rafa”, adoro Índios, fiz um arranjinho de base, mandei pra eles, acho que foi o Arthur Verocai quem fez o arranjo de cordas, com a Orquestra Sinfônica de Brasília tocando, com o Claudio Cohen regendo… deu certo pra caramba, gosto muito daquele momento ali, tocar num estádio, 30, 40 mil pessoas, é emocionante.

Você ainda mora em Brasília?

Moro no Rio.

Você é carioca, cresceu em Brasília  e voltou pro Rio?

Isso. Morei na França, um tempinho, e quando voltei de lá, voltei pro Rio.

Fale um pouco sobre a composição Guerra e Paz, inspirada nos icônicos quadros de Cândido Portinari.

Ele (aponta pro Marcos) é sobrinho-neto do Cândido Portinari. E aí rolou esta conexão, e a partir deste convite apareceu o Milton Nascimento, porque o tio dele, o seu João Cândido, convidou, e aí o Milton “ah, vamos fazer, e tal”, uma coisa bem legal, assim, uma conexão bem bacana. E aí, poxa, é um tema universal, um tema que vai naquele lugar onde a gente precisa refletir diariamente, os presidentes, os caras que decidem mesmo sobre estes grandes problemas da humanidade, quando eles vão para uma grande reunião na ONU eles dão de cara com estes dois painéis. Então é uma coisa espetacular, um negócio muito forte. E aí fiz esta música, na verdade já tem quatro movimentos, a minha ideia era fazer cinco. Eu fiz três, depois fiz mais um, e a gente ainda deve gravar isso. Com orquestra, talvez até com o quinteto. A linguagem deste trabalho foi muito inspirada na linguagem do Milton Nascimento, se você ouvir a música, ela lembra muito aquela coisa mineira, que é uma outra veia que eu gosto.

Guerra e PazGuerra e Paz – Cândido Portinari

Ela realmente me evocou alguma coisa de Cio da Terra.

Sim, sim, ela lembra esta linguagem mineira do Milton, esta coisa da terra, mesmo, do chão batido, e uma coisa um pouco árida, também.

E o lance de compor já tendo em mente outra obra, como neste caso, como funcionou?

Olhei bastante pro quadro, mas o tema guerra e o tema paz, são universais, e tem alguns signos também muito fortes, nos dois quadros. Na parte da guerra, por exemplo, não tem sangue, tem a pietá, que é a mãe com a criança morta, tem umas cenas muito fortes, e ao mesmo tempo, no lado da paz tem crianças brincando, tem os animais, então eu fiquei tentando, dentro desta dualidade fazer uma música que transmitisse paz. Apesar do nome ser Guerra e Paz, eu queria que transmitisse paz, mas não aquela paz inocente, e desconectada da realidade. Uma paz conectada com a realidade.

Música não é só música. Como você enxerga sua conexão com a sociedade e a cultura, e que grau de importância você atribui a ela nesta esfera mais ampla?

Cara, acho que apesar de existirem críticas e gostos, de pessoas que gostam de uma coisa e não gostam de outra, a música no geral é muito agregadora, ela é mais agregadora do que qualquer outra coisa, acho, ela tem este poder de agregar as pessoas, justamente porque ela é emoção, ela não é um celular, uma mesa… Ao mesmo  tempo, ela tem uma coisa concreta, também. Que é o quê? É a ligação que ela faz com as pessoas. Isso do ponto de vista social. Agora, do ponto de vista individual, é aquilo que eu falei, a música até cura. Ela tem um poder tão grande de reflexão, de abertura de mente, faz a cabeça pensar melhor, você fica mais inteligente, até. Acho que a cabeça anda numa velocidade mais compatível com a realidade, ela não é nem muito pra lá, nem muito pra cá, a música, acho que ela ajuda a convergir os pensamentos. Enfim, a música… a vida seria muito chata sem música, vou te dizer isso, eu não sei como é que seria a vida sem música, seria uma chatice (risos). A música tem este poder de fazer a gente encarar os problemas da vida de uma maneira mais tranquila.

Alguma outra história ou experiência relevante ocorrida por causa da música?

Bom, eu poderia te citar alguns fatos, alguns lances que aconteceram, rapidamente, porque como te falei, é isso que me alimenta, mas só do cara chegar no final do show e falar “muito obrigado”, pra mim já é muito bom. Outro dia, num show pelo Brasil, um cara me falou “muito obrigado, eu me lembrei muito do meu pai, você me levou a estar muito próximo do meu pai”, o pai tinha morrido. O Bento Viana, que é um fotógrafo lá de Brasília, contou que quando o pai estava no leito de morte, ele pediu pra ouvir Aquarela na Quixaba, foi a última música que ele ouviu. Depois ele sorriu e foi embora, como se estivesse dando um tchau e agradecendo mesmo diante daquela situação. Isso não tem preço, uma música… e uma música que eu fiz, não é o ego, mas é uma coisa que é o que você pode dar, o que eu posso dar. O Nicolas Krassik e a  mulher dele, se conheceram no Baile do Almeidinha, não sei quantos meses depois, casaram. Ele fala “o Baile do Almeidinha foi nosso cupido”… Poder usar a música na totalidade dela, outro dia, de manhã, um amigão meu, um senhor lá do Rio de Janeiro, Alfredo Brito, faleceu, aí fui de manhã no cemitério tocar no velório dele, com a turma do choro, à noite já fui tocar no Baile do Almeidinha pra levar alegria pro pessoal, então estas coisas que me movem, poder realmente mostrar pras pessoas o quê que a emoção da música pode fazer com a gente, com o coraçãozinho da gente, diariamente.

Quais são os próximos projetos?

Samba de Chico, que é pra março, como te falei. Ano passado eu gravei um disco om uma orquestra do Mato Grosso, com o maestro Leandro Carvalho, um repertório só de músicas infantis, muito legal. Tem os Flintstones, tem Mario Bros, Sítio do Pica-Pau Amarelo, a gente fez um show, foi muito legal, deve ser lançado pro dia da criança. Já tem algumas turnês marcadas, pra Suíça em abril, pra Nova Iorque em maio, pra Europa em julho… fui convidado pelo Festival de Montreux pra tocar lá, cinquenta anos de festival este ano… Japão está se costurando alguma coisa pra eu ir, acho que este ano a gente vai pra lá pela primeira vez.

Portinari: Eu tinha até esquecido deste Japão (risos).

Hamilton: A gente ainda não sabe qual formação. E tocar a vida. O Baile do Almeidinha vai continuar durante o ano, tentar viajar um pouco mais, fazer além dos shows no Rio, fazer uns bailes pelo Brasil. A gente chegou até a fazer alguns, mas expandir um pouco mais… Viver a vida, cuidar dos meus filhos, da minha mulher, dos meus pais.

Portinari: Uma coisa legal que eu queria dizer é o seguinte, que a gente percebeu que pro músico instrumental, um bom caminho é ele ter vários projetos simultâneos. Este é um bom recado pra quem está começando. Porque assim você pode todo ano tocar no mesmo festival, sempre tem um projeto novo a oferecer, e você consegue trabalhar o ano inteiro sem ter um período que não rola nada.

Hamilton: Agora, tentar fazer isso com qualidade, tentar buscar a qualidade. Agora, esta qualidade também, cada um fala o que é, “ah, isso é música de qualidade”, isso também vem muito do gosto, mas eu digo qualidade no sentido de fazer o melhor possível, o melhor do dia, “não consigo fazer melhor do que isso, estou no meu máximo”, e não se grilar com isso, no outro dia ficar “ah, podia ter feito melhor”, não, ter desapego pra dizer “é isso, e vamos nessa, vambora.” (risos).

Hamilton de Holanda Quinteto se reencontra no Brasil Jazz Fest para celebrar 10 anos desde o lançamento do primeiro disco

Premiado “Quintetão” se apresenta no dia 2 de abril, às 21h, no Auditório Ibirapuera, e no dia seguinte, às 20h, no Vivo Rio.
http://www.brasiljazzfest.com.br/wpjazz/

Hamilton de Holanda Quinteto é formado por expoentes da música instrumental brasileira que conquistaram respeito e fama internacional: Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas), Gabriel Grossi (harmônica), Marcio Bahia (bateria), Daniel Santiago (violão) e Guto Wirtti (baixo acústico). Juntos lançaram nesses 10 anos a trilogia Brasilianos 1, 2 e 3, em 2006 / 2008 / 2011 respectivamente.

O então jovem quinteto Brasilianos tinha como combustível amizade, excelência, amor e respeito pela música. Viajaram o mundo trilhando rotas de um caminho aberto por outros mestres: Villa Lobos, Pixinguinha, Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, entre outros. Aqui no Brasil, conquistaram fãs entre os jovens e estudantes de música e deles ganharam o apelido de QUINTETÃO.

Participaram dos principais festivais do planeta, representando a música instrumental brasileira por diversos recantos, como Macedônia, Eslovênia, França, Uruguai, Argentina, EUA, Itália, Canadá, Venezuela, Colômbia, Noruega, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Guiana Francesa, Uruguai, Espanha, Portugal, Suíça, Holanda, Malásia, entre outros. Nestes festivais, grandes nomes do Jazz mundial se impressionavam pelo nível de dificuldade das harmonias e composições e pela sincronicidade em que tocavam. Esse esmero os consagrou como o melhor grupo e Hamilton de Holanda o melhor performer nos prêmios TIM, Prêmio da Música Brasileira, Revista Jazz+, entre outros importante veículos especializados e todos indicados ao Grammy Latin em diversas categorias.

Me lembro, em Las Vegas, nos dois primeiros anos em que o Quinteto foi indicado que, ao entrarmos na cerimônia, o nosso disco estava sendo tocado na integra.”, conta Hamilton de Holanda Cada um dos integrantes guarda surpresas. O canhoto baterista Marcio Bahia, por exemplo, toca eximiamente como destro e aliado a forma de tocar que aparenta ausência de esforço, enlouquecia os grandes nomes da bateria mundial e os trazia à coxia dos teatros para assisti-lo. A plateia vinha abaixo em seus solos, especialmente, usando uma cadeira. Marcio Bahia merece um capitulo no livro da bateria Brasileira. Já Gabriel Grossi carregava, onde fosse, sua inseparável harmônica e dela emitia uma metralhadora de notas. Um belo dia, o principal gaitista do mundo Toots Thieleman ligou para sua casa para dizer como tinha gostado do disco do brasiliense e que, para ele, Gabriel era um dos melhores do mundo. No começo achou que era trote, passado alguns segundos viu que era pura verdade.

Daniel Santiago é violonista e compositor de mão cheia. Seu genial violão de centro poderia ser comparado no futebol ao armador lançando os atacantes do meio de campo rumo ao gol. Compôs junto a Hamilton a “Sinfonia Monumental”, projeto do Quinteto com Orquestra em homenagem aos 50 anos da capital Brasília.

André Vasconcellos é o contrabaixista da formação original e desde garoto já tocava com os grandes artistas da MPB. Ainda adolescente, mudou-se de Brasília para o Rio de Janeiro pra tocar na turnê AO VIVO da banda de Djavan e hoje é referência na escola do contrabaixo brasileiro. Aqui nesta celebração especial, ele será representado pelo contrabaixista Guto Wirtti, que também já viajou com o quinteto. Carismático, Guto por sua vez traz os acentos do sul do Brasil e também é um dos seletos baixistas acústicos Brasileiros.

Músicas contam estórias que não precisam de palavras. Quando as composições são feitas, o cenário e as emoções dão a inspiração. Em outras ocasiões, melodias, ritmos e harmonias unem-se pelo simples motivo de se transformarem em uma nova música, como amigos que se encontram. Assim é conosco quando nos encontramos, as coisas clicam como numa continuação onde tudo pode servir de inspiração e parece que o último desses grandes encontros foi ontem.” Hamilton de Holanda.


A trilogia Brasilianos é uma fotografia musical do momento presente vivido. Brasilianos 1 tinha feijões pretos na capa como uma referência ao que alimenta diariamente o povo brasileiro, e era a mistura de uma concepção madura e a pretensão jovial de achar que se pode influenciar na mudança do caminho das coisas, da possibilidade de se deixar um marco artístico. O conceito é inspirado na antropofagia da Semana de Arte Moderna de 22. No encarte criaram o MANIFESTO BRASILIANOS que dizia assim:

Um manifesto musical para mostrar que muito do que acontece feito por gente daqui, não chega aqui. Que muito do que acontece alimentado por alimento daqui, não alimenta o povo daqui. Que muito do que acontece colorido por cores e sementes daqui, não brota aqui e mesmo assim contra todas as possibilidades o artista daqui produz, recicla, reinventa e improvisa uma saída germinando arte genuína brasileira surpreendendo o povo de lá que, encantado a consome mais…”.

Brasilianos 2 trazia na capa um tamanduá, uma referência da nossa fauna. O disco é musicalmente a materialização da vontade de continuar a fazer mais do mesmo, de perdurar a sensação de estar vivo, pelo mundo, fazendo o que mais se gosta e ainda poder representar um Brasil moderno, altivo e criativo. Percebia-se pela reação da plateia que uma juventude gostava e se identificava com o que faziam.

Brasilianos 3 é o disco mais completo e tem na capa uma foto em salvador, representando o sincretismo religioso afro-brasileiro. É a percepção de que existem coisas que realmente podemos mudar, mas, assim como na natureza, há também outras que não – a mestria está em diferencia-las. Traz um amadurecimento visto desde a forma de como foi gravado (indicado a melhor engenharia de áudio no Latin Grammy) até o encontro da criatividade e a densidade das composições. Conta com presença especialíssima de Milton Nascimento, uma referência para todos do grupo, na homenagem que fizeram aos painéis de Cândido Portinari – Guerra e Paz.

“A música pode ser sofisticada e acessível ao mesmo tempo. Pra isso ela precisa guardar em sua essência a simplicidade. Ela precisa ser simples como um abraço“, resume Hamilton de Holanda. A nomenclatura e conceito BRASILIANOS foi concebido por Hamilton junto ao seu sócio e parceiro criativo Marcos Portinari. É também o nome da gravadora independente e da empresa artística que gerencia a carreira do artista. A Brasilianos é o canal de lançamento dos discos de Hamilton, seja produtos independentes ou em parceria com gravadoras como Biscoito Fino, Deck Disc, Universal, MPS (Alemanha), entre outras. E em abril, lança Samba de Chico, disco em homenagem ao centenário do gênero, que reúne sambas de Chico Buarque.