HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Arquivo do mês: junho 2016


Hermeto Pascoal: o som do infinito

A primeira vez que assisti a Hermeto Pascoal foi uma grande revelação : dava pra ver as notas que saiam da cabeça e o do coração indo direto pro nosso ouvido. A impressão que tive é que o tempo entre as ideias que ele parecia ter e o momento em que os dedos tocavam as teclas do piano não existia, isso para um jovem músico de 16 anos foi impactante. Até então, conhecia o Hermeto de seu famoso Chorinho pra ele, que adorava tocar. Não sabia da sua capacidade de improvisação e criação espontânea. Quem me falava muito dele na infância era Pernambuco do Pandeiro, que foi o líder do primeiro Conjunto profissional que Hermeto tocou, o Regional de Pernambuco do Pandeiro. Ele foi meu padrinho musical e era muito amigo de Hermeto.

Passei então a ouvir mais a sua obra: Slave Mass, Só não toca quem não quer, Festa dos Deuses, Cérebro Magnético, Zabumbê Buá, entre outros. Mergulhei nas suas harmonias e melodias. Estudei ritmos e polirritmias. É uma obra atemporal e muito profunda. Profunda porque tem o que há de mais brasileiro em sua essência. Ele vai fundo no que diz respeito a sua raiz nordestina. Ao mesmo tempo tem uma imagem de música feita pelo universo, porque não se encaixa em apenas um gênero específico, em um padrão único. Além disso, ela pode ter a melodia mais simples e linda e também os ritmos e acordes mais elaborados, com todas as matizes de sensações. Hermeto, acima de tudo, sente e faz. Ele é puro coração, sua música me sugere todo tipo de sentimento e sensação.

Eu tocava com meus amigos em Brasília as músicas de Hermeto: Rogério Caetano, Daniel Santiago, Gabriel Grossi, Amoy Ribas, André Vasconcellos, entre outros. As músicas nos desafiavam o tempo todo, ao final de cada tema vinha uma sensação de vitória, como se tivéssemos ultrapassado uma grande barreira técnica e emocional. Nessa época, conheci o Marcio Bahia. Grande baterista, figura amável que tocava com Hermeto. Ele fez a conexão e marcou uma visita em Bangu, no Rio de Janeiro, onde o Hermeto morava. Fui com o André Vasconcellos e dois integrantes do grupo de Choro Rabo de Lagartixa, Dani Spielman e Marcello Gonçalves. Assim que chegamos, o mago Hermeto nos levou para o estúdio e ali mesmo, sem cerimônia, começou a fazer uma música para nós.

Era impressionante ver e participar daquele momento de criação. Me lembro que ele usou o cavaquinho e o piano para compor. No começo, achei que ele inventava as frases e ia colando, como uma colcha de retalhos. Quando chegou ao fim, tive outra impressão : cada frase que ele criava tinha vida própria, mas quando ele juntou tudo, a música apareceu e a ideia musical fez todo sentido. Quando fui embora, tive a certeza que aquilo que vivi tinha sido muito especial e que iria lembrar a vida toda. A música ficou com o nome ‘Lagartixa de ouro’.

Tive outras experiências musicais com Hermeto. Uma certa vez em Londres, participei da comemoração de seus 75 anos de idade no Barbican. Foi outra forte emoção: de um lado do palco o Grupo de Hermeto quebrando tudo, desfilando temas e mais temas. Do outro lado, uma big band comandada pelo pianista Jovino Santos Neto tocando composições do ‘Campeão’ em um nível maravilhoso. Foi uma pancada. O Grupo tocava uma, a Big Band, outra. Era lá e cá. Cada tema diferente do outro, muito bom. Neste dia, toquei algumas músicas com eles, foi fantástico. Deu pra ver de perto, mais uma vez, a capacidade de comunicação com o público que ele tem, mesmo sem falar inglês. As brincadeiras musicais são sempre surpreendentes. A música de Hermeto é bem-humorada. Ele tem uma empatia muito grande com as pessoas, sabe fazer o público se sentir bem e se sentir parte do show.

Nesse dia acho que ele tocou teclado e alguns instrumentos não-convencionais : taça de vinho, patinho de criança e a própria barba. Já vi ele tocar, além do piano, saxofones, flautas, violão, viola, trompete, bandolim, pandeiro e outros. Todos com uma musicalidade fluente e comovente. O que mais me encanta na sua personalidade como compositor é a capacidade de fazer uma música super simples, daquelas melodias que fazem até uma pedra chorar e também aquelas encrencas, com muita elaboração e complexidade.

A última vez que fez as contas de quantas composições ele tem, recentemente, chegou ao número aproximado de 8000 músicas. É capaz de ser mais do que isso. Se em um ano ele compôs 366 temas para todos os aniversariantes – o famoso Calendário do Som, de 1996 – e há muito tempo segue nessa pegada, ele deve estar perto do infinito. É isso mesmo, se o amor pode ser infinito, a música de Hermeto Pascoal é o som do infinito.

Hamilton de Holanda para o site do Museu da Imagem e do Som.

Hamilton de Holanda ganha o Prêmio da Música Brasileira

Hamilton de Holanda recebeu ontem, em solenidade no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Prêmio da Música Brasileira. O reconhecimento como Melhor Solista do ano veio pelo disco Pelo Brasil, lançado em 2015 pela sua editora Brasilianos. Como este, o bandolinista acumula 12 estatuetas da premiação.

A 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira aconteceu na noite desta quarta-feira (22) no Rio Janeiro e homenageou Gonzaguinha [1945-1991], que completaria 71 anos de vida em 2016. Artistas como João Bosco e Lenine subiram ao palco do Theatro Municipal para prestar homenagens ao cantor brasileiro.

Hamilton de Holanda, Yamandu Costa e Rogério Caetano celebram a noite de premiações no Theatro Municipal do Rio de janeiro

Com repertório baseado em composições autorais inéditas, como “Carimbobó”, “O jumento e a capivara”, “Sambaíba”, “O Amor e a canção”, “A escola e a bola”, “Chama lá” e “Frevinho”, o projeto Pelo Brasil propõs uma travessia musical interativa que exaltou alguns dos ritmos brasileiros mais representativos, como o Choro, o Baião, o Maracatu, o Samba, o Bumba-meu-boi, a Moda de viola e o Chamamé.

Em dois anos de trabalho, Hamilton de Holanda levou o espetáculo solo de bandolim a 17 estados brasileiros em uma magnífica viagem Pelo Brasil. Saiba mais em http://hamiltondeholanda.com/pelobrasil/#about

Yamandu Costa e Rogério Caetano receberam o prêmio de Melhor Disco de Música Instrumental pelo trabalho “Tocata à Amizade”.

Músicos ganham menos com YouTube do que com vendas em vinil

Se os músicos dependessem exclusivamente da renda gerada por serviços de streaming mantidos por meio de anúncios, como o YouTube, possivelmente acabariam procurando outra profissão. De acordo com um estudo feito pela BPI, entidade de classe da indústria fonográfica do Reino Unido e responsável pelo prêmio BRIT Awards, a renda gerada pelo streaming de vídeos em 2015 foi de £ 24,4 milhões (cerca de R$ 130 milhões), o que corresponde a apenas 4% da receita total.

Em um comunicado divulgado junto com a pesquisa, Geoff Taylor, presidente da BPI, acusa empresas como o YouTube de abusarem de proteções jurídicas para não pagarem os royalties devidos, ditando os termos das negociações em detrimento dos artistas.

“As consequências de longo prazo são sérias, reduzindo o investimento em novidades no campo da música, dificultando que a maioria dos músicos seja bem remunerada, e minando o crescimento de serviços inovadores como o Spotify e o Apple Music, que pagam de maneira mais justa pela música que usam”, afirma Taylor.

Os números apresentados pela BPI mostram que o consumo de música no Reino Unido aumentou 12,9%, mas a renda gerada pela indústria caiu 0,9%, ficando em aproximadamente R$ 3,6 bilhões. Por outro lado, serviços de streaming de música como Deezer e Tidal tiveram um aumento de 82%, o que levou a um crescimento na renda gerada por eles de 69%.

E, enquanto as vendas de CD continuaram a cair, o mercado de vinil mostra que está cada vez mais forte. Foi o oitavo ano consecutivo em que as vendas de LPs subiram, atingindo um total de £25,1 milhões (R$ 132 milhões). Ou seja: os analógicos discos renderam mais aos artistas do que o digital YouTube.

DIREITOS AUTORAIS EM QUESTÃO

Para Geoff Taylor, a música não pode ser vista apenas como mais uma commodity a ser explorada pelas empresas de tecnologia:

“Em 2015, fãs no Reino Unido assistiram a quase o dobro de vídeos transmitidos por streaming em relação ao ano anterior; dezenas de bilhões de visualizações a mais. Porém, artistas e selos não se beneficiaram da maior demanda que criaram. Isso está errado”, diz o presidente da BPI, que termina convocando o setor a batalhar por melhores condições:

“Como já vimos diversas vezes no mercado digital, a música vai primeiro e depois é seguida pelo resto do setor de conteúdo. O problema exige ações urgentes por parte da União Europeia, e nosso governo precisa tomar a liderança para garantir que o problema seja enfrentado”.

A questão também já foi levantada no Brasil. Um relatório sobre o mercado brasileiro também aponta para o fato de empresas como YouTube gerarem menos receitas, quando comparadas a outros como Spotify e Deezer. Para explicar a questão, o presidente da ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos), Paulo Rosa, citou o DMCA, a lei de copyright americana, que inspirou a legislação europeia.

— Isso se deve à legislação americana e europeia e já vem sendo discutido. Para as gravadoras, é melhor aceitar o valor baixo do que ficar tentando tirar o conteúdo de lá, o que é virtualmente impossível — ressalta.

Em uma nota enviada ao jornal inglês “The independent”, a assessoria do YouTube disse que “as alegações que a DMCA seria responsável por uma ‘lacuna monetária’ na música são simplesmente falsas”. A empresa ainda criticou a comparação a serviços de assinatura:

“À medida que aumentarem os valores investidos na publicidade online, isso vai fazer com que a renda seja compatível com o consumo. Comparações com serviços exclusivos de áudio, de assinatura de música, é como comparar maçãs a laranjas”.