HAMILTON DE HOLANDA

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Crítica: Hamilton de Holanda mostra seu olhar sobre Pixinguinha em DVD

 

Bandolinista e amigos se lançam com devoção e liberdade sobre obra do homenageado

Hamilton de Holanda com o acordeonista Richard GallianoFoto: Divulgação
Hamilton de Holanda com o acordeonista Richard Galliano - Divulgação

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POR LEONARDO LICHOTE

23/08/2016 4:30
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RIO — Pixinguinha é, sim, “muito grande, uma bandeira”, como define o pianista cubano Omar Sosa, um dos convidados do DVD “Mundo de Pixinguinha — Ao vivo” (Brasilianos/ Crioula Records/ Canal Brasil). O registro do show — feito a partir do disco em homenagem ao compositor lançado por Hamilton de Holanda em 2013 — ilumina essa grandeza, mas não se limita a isso.

O bandolinista e seus amigos se lançam com devoção sobre a obra de Pixinguinha, mas sobretudo com absoluta liberdade — assim, tendo um artista como ponto de partida, se esparramam sobre temas ainda maiores, como o Brasil (Villa-Lobos, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga), o mundo (nas composições próprias de cada um) e o sentido das fronteiras (afirmadas e dissolvidas a cada compasso).

Hamilton tem um único momento solo, a abertura, com “Naquele tempo”, afirmação clara desse encontro de devoção e liberdade. Depois, o que se vê é o diálogo vivo e quente de percepções musicais e linguagens únicas que se encontram no prazer acima da técnica (impecável em todos eles).

O pianista André Mehmari é o primeiro a ser chamado a dividir o palco com Hamilton. Juntos, homenageiam Pixinguinha tangenciando-o. Primeiro, em “Nasce um anjo” (do pianista) e “Capricho de Pixinguinha” (do bandolinista). A primeira tem o enlevo de culto, da Beleza com maiúscula, enquanto a segunda carrega o sabor de chão negro, amaxixado — amarrando duas perspectivas de Pixinguinha que se completam.

Ao lado de Sosa, em números como “Yaô” e “Dos caminos”, Hamilton explora terrenos como o samba-jazz e o bebop — as sandálias do pianista marcando o tempo no chão e os búzios no seu pulso próximo das teclas ajudam a explicar o que se ouve ali. O acordeonista francês Richard Galliano faz de “Agradecendo” uma valsa francesa, visita Dominguinhos (“Ciao São Paulo”, dedicada a ele) e Sivuca (“Feira de mangaio”). O italiano Stefano Bollani mostra sotaque carioca na fala e na leitura de “Segura ele” e mesmo no humor de sua “Il Barbone di Siviglia”.

Do início ao encerramento, com “Carinhoso”, Hamilton e seus amigos revelam mais de seus olhares sobre Pixinguinha do que do próprio Pixinguinha. Bandeiras servem pra isso, no fim das contas — referências cujo sentido reinventamos e a partir das quais nos reinventamos.

“Mundo de Pixinguinha — ao vivo”

Hamilton de Holanda

Cotação: Ótimo

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