HAMILTON DE HOLANDA

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Carta agradecimento: Pela guarda do Bandolim de 10 cordas que foi de Jacob

 

Comecei a tocar bandolim aos 5 anos de idade ou pelo menos a brincar porque ele sempre foi o meu brinquedo mais legal. Antes eu tocava escaleta, cornetinha de plástico e um pouquinho de cavaquinho. Confesso que não me lembro muito bem, só por algumas gravações em fita cassete da época que o meu pai, José Américo, teve a boa ideia de fazer com um gravador da Polyvox. Não me esqueço das viagens que fazíamos de carro no banco de trás com o aparelho de som entre mim e meu irmão César, que já tocava cavaquinho e passou muito rápido pro 7 cordas, tinha 10 pra 11 anos. Ouvíamos muito choro de Pixinguinha, Jacob, Altamiro Carrilho, Época de Ouro, Joel Nascimento, Déo Rian, Galo preto, Camerata Carioca, Os carioquinhas, Nó em pingo D’água, Armandinho, Waldir Azevedo, Radamés Gnatalli, Raphael Rabello. Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes, Elis Regina, Fundo de Quintal, João Nogueira, Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Gonzaga, Sivuca e mais um monte de coisa boa. Muito  Frevo também, já que meus pais são pernambucanos. Lembro que minha mãe, D. Teba, pedia pra gente tocar suas músicas preferidas: Naquele tempo e Vibrações. Ela não pedia sempre porque sabia que tinha dia que a gente só tocava o que queria, ficava de marrinha.

No ano de 1984, com 8 anos, participei de um show em homenagem a Jacob que marcou definitivamente a influência de sua música em minha vida. Nesta oportunidade, conheci o conjunto Época de Ouro. Toquei com Dino, Jorginho, Ronaldo do Bandolim, com Armandinho, Déo Rian, entre outros nomes. A música de Jacob foi a trilha de um momento muito emocionante em minha vida. Tocava Jacob em todas as rodas que eu ia no Clube do Choro de Brasília. Passei uma infância feliz, com amigos, família, brincadeiras e muita música.

Aos 13 anos, aprendi a tocar violão com os acordes do estilo da Bossa nova e do Choro, ao mesmo tempo em que estudava harmonia pela metodologia da música clássica como uma outra matéria na Escola de Música de Brasília, isso depois de ter estudado uns 3 / 4 anos de violino. Mas o violão abriu um portal na minha mente e na emoção pelas possibilidades de montagem de acordes. Passei a visualizar e ter um pouco mais de controle do que podemos chamar de arquitetura da música. A harmonia é uma parte fundamental da música, através dela passei a entender e curtir vários gêneros e artistas de diferentes escolas : Hermeto Pascoal, Baden Powell, Milton Nascimento; a música clássica de maneira geral, compositores como Bach, Villa-Lobos, Mozart, entre outros. Com o tempo, fui tentando passar o que aprendia no violão pro bandolim. Daí, descobri a polifonia : eu podia ver, ouvir e tocar a melodia, a harmonia e o ritmo no meu bandolinzinho. Nesse mesmo período, conheci um bandolinista que foi amigo de Jacob, o Cincinato. Ele era conhecido por sua maneira peculiar de tocar o bandolim : tocava armado. Mas não era arma de fogo, sua arma eram os acordes, os dedos estavam sempre com um acorde armado. Numa finalização de frase, sempre aparecia um acorde, ele gostava de harmonizar as melodias. Cheguei a tirar algumas músicas dele, gosto do estilo.

Em 1998, gravei a música Inesquecível, que Paulinho da Viola fez pro mestre Jacob. É a minha primeira gravação apresentando o bandolim polifônico, solo. A partir daí, fui criando arranjos com essa cara. Com o tempo, fui sentindo a necessidade de ter mais notas no instrumento, chegava uma hora que me faltava uma notinha ou outra. Passei a pensar na possibilidade de acrescentar cordas no bandolim. Já sabia que outros músicos tinham feito instrumentos com mais cordas do que o usual. O próprio violão de 7 cordas, instrumento tão importante na história da Música Brasileira, era meu companheiro através das mãos de meu irmão. Eu já tinha ouvido falar de Mário Álvares,  até tocava Teu Beijo, que é uma música dele gravada por Jacob. Foi um chorão que viveu entre viveu na virada dos séculos 19 e 20. Ele tocava um cavaquinho de 5 cordas e um tipo de bandolim com 14 cordas. Outro acontecimento foi marcante: fui passar o carnaval em Salvador, na casa de Armandinho e vi a guitarra baiana, que é um bandolim elétrico com cordas simples, tendo uma corda a mais, total de 5. Ele também tinha um instrumento bem diferente no estúdio, um bandolim elétrico com 5 pares de corda.

No começo do ano 2000, liguei pro luthier Vergílio Lima, de Sabará, Minas Gerais, e fiz uma encomenda. Pedi que fizesse um bandolim com 10 cordas. Me lembro de duas coisas que disse a ele : que o instrumento fosse feito com madeiras baratas, já que era um protótipo e, caso não desse certo, o prejuízo não seria grande. E  que pegasse as medidas do bandolim de 8 dividisse por 4 e multiplicasse por 5, fazendo as compensações que ele achasse necessárias, com sua experiência de anos na luteria. Alguns meses depois, especificamente em outubro de 2000, chegou o bandolim. O protótipo deu certo. Passei a gravar meus discos com ele. No início, parecia um bandolim de 8 com um dózão que eu tocava de vez em quando. Depois de alguns meses, passei a usar as 10 cordas na totalidade. A primeira gravação de um arranjo solo no 10 foi em 2001, a música Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro. Em 2002, passei um ano morando sozinho em Paris, o que me deu tempo e sossego pra tocar o bandolim de 10 o dia inteiro, compondo, criando arranjos, descobrindo novos caminhos e repetindo algumas coisas à exaustão. Nos anos seguintes, gravei alguns discos solo que mostram o bandolim de 10 polifônico : 01 byte 10 cordas (Ao vivo no Rio), Esperança (Ao Vivo na Europa), Samba do Avião e Íntimo. Alguns em parceria, que mostram a possibilidade do instrumento como acompanhante também : com o bandolinista americano Mike Marshall, com Joel Nascimento, com a cantora Zélia Duncan e com o cantor Diogo Nogueira. Além do projeto Caprichos, que é uma proposta de repertório brasileiro para o Bandolim 10 cordas com 24 músicas de estilos e diferentes técnicas.

Desde 2014, praticamente todos os luthiers que fazem bandolim no Brasil passaram a fazer o de 10 cordas. Alguns estrangeiros, também. E novos bandolinistas começaram a se destacar tocando este instrumento : Dudu Maia, Luis Barcelos, Rafael Marques, Fábio Peron, Rafael Ferrari, Carrapicho, Vitor Angeleas, Tiago Tunes, Gabriel Rosário, Pedro Franco, Jorge Cardoso, Fernando Dalcin, Ian Coury, entre outros feras.

Em 2015, veio a descoberta, pelo menos pra mim, que o nosso mestre Jacob também teve um bandolim de 10 cordas. Era o elo que faltava pra ter certeza de que este instrumento é muito especial e já fazia parte do inconsciente coletivo dos bandolinistas. Temos dentro dele o bandolim de 8 e ainda outras possibilidades harmônicas e de timbre que são muito valiosas. Saber que Jacob também buscou essa sonoridade é um alento pra que os bandolinistas de 10 continuem a desenvolver, cada um a sua maneira, uma linguagem inspirada na musicalidade brasileira. Mostrar que o instrumento é o meio pelo qual podemos expressar nossa ancestralidade, nossos sentimentos e nossa capacidade de ver o futuro.

Eu só tenho a agradecer por estar com o bandolim que pertenceu a esse músico sem igual. Me sinto muito honrado, muito emocionado. Muito obrigado ao Instituto Jacob do Bandolim, seu presidente Déo Rian, o vice, Sérgio Prata e toda a diretoria, conselheiros e colaboradores que tocam em frente a difícil e bonita tarefa de divulgar e valorizar o legado deixado por Jacob. Muito obrigado também à Casa do Choro, nas pessoas de Luciana Rabello e Maurício Carrilho, além de todos que contribuem diariamente. O trabalho que vocês fazem é motivo de muito orgulho. Muito obrigado ao luthier Tércio Ribeiro, do qual tenho 2 instrumentos e foi o responsável pela restauração do bandolim de 10 do Jacob. Agradeço todos os músicos com quem tive a chance de tocar, gravar e aprender. Graças a Deus, são muitos. Eu sou tudo que aprendi e aprendo com vocês. Um agradecimento especial ao meu parceiro de trabalho do dia-a-dia nestes últimos 12 anos, Marcos Portinari, pelas horas e neurônios dedicados e toda nossa equipe por fazer acontecer a minha carreira e a alegria no trabalho. Aos meus fãs que dão sentido ao resultado final de todo esse trabalho, muito obrigado. E à minha família, que, chova ou faça sol, está comigo pra elogiar e criticar tudo que faço. Rafaela, Gabriel, Bruno, Cinara, Teba, Américo, César (e tem mais gente legal na família), amo vocês!

Música é trabalho, diversão e educação. Ela nos faz viajar pelo tempo, nos eleva a alma, além de nos dizer quem somos, de onde viemos e aonde podemos ir. A música faz o ser humano se sentir vivo e altivo. Sentimos a grandeza de nossa humanidade e nossa pequenez diante do universo.

Finalizo com um trecho da carta que Jacob escreveu para Radamés Gnattali falando sobre a Suíte Retratos, que ele compôs especialmente pro mestre do bandolim :

Antes de Retratos, eu vivia reclamando: ‘É preciso ensaiar.’ E a coisa ficava por aí, ensaios e mais ensaios.

Hoje minha cantilena é outra: ‘Mais do que ensaiar, é necessário estudar’. E estou estudando.”

Viva Jacob !

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