HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Arquivo do mês: março 2018


UMA VIAGEM PELO SOM DA IMAGEM

O tempo fechou rapidamente, a chuva apertou, deu a sua benção e abriu alas para o “Som da Imagem”. Dentro do Oi Casa Grande, na noite de 27 de fevereiro, não se ouvia chuva – a sua presença se fazia notar pelos cabelos e roupas que pingavam, como uma lembrança de que lá fora o mundo desabava sobre o Rio de Janeiro. Mesmo com o burburinho sobre as ruas alagadas, as poltronas do teatro foram sendo ocupadas pelos que resolveram adentrar a noite, desafiando a chuva forte para ver e ouvir o espetáculo.

“Vai ser tipo cinema mudo. A gente só entende o que se passa na tela por causa da música”,  uma senhora tentava explicar a proposta do show à sua amiga que apontava para o telão branco com ar de indagação.

Acomodadas, as pessoas mergulharam na escuridão da plateia e, logo que o show começou, foram magnetizadas pela música e pelos vídeos projetados. O público mantinha os olhos e ouvidos atentos para o que se passava no palco, e essa imersão forte produziu um estado onírico no ambiente. Ali, no breu, a banda tocou embrenhando a música por ruas movimentadas do Centro do Rio de Janeiro, por trilhos de trens, cidades antigas, florestas, entre pés dançantes e lábios que assobiavam. Era um verdadeiro passeio guiado pelo som, que indicava o caminho interpretativo dos vídeos, que ora eram percebidos como introspectivos, ora como alegres, ora saudosos, ou mesmo de suspense. Como em uma via de mão dupla, a música era o norte das imagens, que por sua vez serviram de inspiração para a criação musical.

No processo de composição e de preparação do show, Hamilton usou os vídeos como um estímulo. Compunha ao mesmo tempo em que assistia aos registros e, assim, nasceram diversas composições instantâneas. O desafio era absorver a atmosfera dos lugares, as lembranças e sensações que eles despertavam, e produzir simultaneamente composições de uma forma bem intuitiva.

Ao ver um vídeo do céu banhado de estrelas, imaginou imediatamente uma música sideral, despertou-lhe a ideia de uma viagem à lua, ao espaço, uma composição de extraterrestres e, assim, flertou com uma sonoridade diferente das que já tinha feito antes, aproximando-se de timbres de teclado. Algumas imagens foram feitas em viagens de Hamilton e seu empresário Marcos Portinari pelo mundo. As imagens do Rio de Janeiro ficaram por conta de Rafaê e Nelson Porto.

E foi assim, brincando de alquimista, que a banda fez a leitura musical das imagens. Thiago da Serrinha, músico que há algum tempo toca ao lado de Hamilton, e Macaco Branco, que traz a experiência riquíssima como mestre de bateria da Unidos de Vila Isabel, assumiram a percussão. Marcelo Caldi derramou a sua sensibilidade e serenidade sobre as teclas da sanfona e do teclado, e o jovem brasiliense Pedro Martins mostrou de uma forma espetacular a sua noção musical de coletivo e ao mesmo tempo não poupou a emoção e o talento nos solos.

A banda passeou por um roteiro com variadas nuances de sentimentos que a música pode transmitir. Intercalou-se euforia com tristeza, que deu espaço para a estranheza e para o belo. Ao final, desembocou na ideia do “Samba da Bênção”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell: “é melhor ser alegre que ser triste”, com a harmonia entre o que se vê e o que se escuta.

O som faz parte da memória e da identidade de um lugar. Participa do corpo da cidade: é a vibração do espaço. Com todas as suas fissuras, construções, cicatrizes e pegadas, essas regiões produzem uma sonoridade única que, em conjunto com o que trazemos de vivência, nos remetem a diferentes sensações e inspirações. O som do vento soprando nos troncos das árvores de uma floresta, de trânsito de carros em uma das vias mais movimentadas de São Paulo, do estalo de um beijo, de uma feira de rua, do silêncio incômodo de uma noite estrelada. Por ser vibração, ele adentra o nosso corpo e remexe com o que a gente tem de mais íntimo. E foi em busca desse frisson que Hamilton procurou fazer experiências com as suas impressões. Acomodou o instrumento nos braços e viajou por aí.

Por Maria Carolina Rodrigues