HAMILTON DE HOLANDA

BLOG / Produção


aqui será um espaço para produção, idéias, soluções, experiências do mercado Cultural

Novas maneiras de abordar o consumidor

No globo online dia 21/06/2011 :

Para os Kaiser Chiefs, o conceito de álbum – um disco pensado da primeira à última faixa, incluindo a capa e todos os seus detalhes – já era. Pelo menos, é o que parece pela inovadora, mas discutível, estratégia de lançamento do seu quarto trabalho, “The future is medieval”. Antes de ver a luz do dia, em formato “oficial”, na próxima semana, o disco já pode ser comprado, desde o começo deste mês, em versão “customizada” pelo público.

Para isso, basta acessar o site do grupo inglês (kaiserchiefs.com), ouvir trechos das faixas (são oferecidas 20), escolher dez, selecionar o desenho para a capa (e a cor do fundo também) e, pronto, você pode comprar a sua própria versão de “The future is medieval”. Pode também deixar sua versão no site ou oferecê-la nas redes sociais. Cada vez que alguém comprá-la, você ganha um troco. Parece um bom negócio, em sintonia com os dias atuais, participativos, de plena interatividade.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/06/20/kaiser-chiefs-exageram-na-interatividade-ao-entregar-fas-edicao-do-novo-disco-924727327.asp#ixzz1PuhsYtb6
© 1996 – 2011. Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A.

Direitos autorais, mais um lado da polêmica, e você o que acha?

“Do meu direito autoral não abro mão.” Declarações como esta do cantor e compositor Caetano Veloso demonstram que ainda há muita confusão na discussão do direito autoral na internet, constata o diretor da Campus Party Brasil. “Não existe nenhum movimento que obrigue autores a liberarem suas obras por meio de licenças  Creative Commons ou qualquer outro tipo de licença”, esclarece em entrevista concedida à IHU On-Line, por telefone.

Na opinião de Marcelo Branco, manifestações como a de Caetano tem o objetivo enquadrar a internet e remetem ao Projeto de Lei do deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MB), que ficou conhecido como AI-5 Digital. “A reação de artistas tradicionais em defesa da ministra Ana de Hollanda revelou uma discussão ainda pior do que a retirada do selo do Creative Commons do site do Ministério. Revelou uma defesa, de certa forma, do Projeto de Lei do Azeredo, o AI-5 Digital, que quer punir e criminalizar com até três anos de cadeia quem estiver baixando músicas pela internet”.

A revolução tecnológica propiciada pela internet exige mudanças na atual lei do Direito Autoral, a qual, segundo Branco, deve “admitir aos avanços da internet e descriminalizar as práticas de compartilhamento de arquivo P2P”. Marcelo Branco lembra ainda que o Brasil é um dos países que mais consome música nacional, entretanto, a balança de pagamentos de royalty de direito autoral do país é desproporcional. “O Brasil paga dois bilhões de dólares anuais porque as empresas donas dos direitos dos autores brasileiros são estrangeiras”.

Marcelo D’Elia Branco é diretor da Campus Party Brasil. Consultor para sociedade da informação, ele é coordenador do projeto Software Livre Brasil e também ocupa o cargo de professor honorário da Cevatec, além de ser membro do Conselho científico do programa internacional de estudos superiores em software livre na Universidade Aberta de Catalunha.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual sua reação diante do posicionamento da ministra da cultura, Ana de Hollanda, no início do ano, em relação à retirada do selo do Creative Commons do sítio do ministério? Qual é o valor simbólico deste ato?

Marcelo D’Elia Branco – Fiquei surpreso com a iniciativa do Ministério da Cultura. Nesta ocasião estava acontecendo a Campus Party, o maior encontro de internet do Brasil, e eu e diversos ativistas participamos de uma ação de crítica à posição da ministra, no Twitter.

A atitude dela foi incompreensível em função do acúmulo que o governo brasileiro tem em relação a esse tema. A posição brasileira em defesa das licenças flexíveis foi construída ao longo dos anos pela sociedade civil. Por isso, acredito que a retirada da licença Creative Commons foi um erro político cometido por alguém que está chegando ao Ministério, não domina o tema e tem um histórico de defesa ao direito autoral e ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

Desde o acontecimento, tenho lutado para que, de várias formas, se possa informar ou formar a ministra sobre o histórico do Creative Commons . É pouco provável que vai haver um retrocesso no governo Dilma em relação ao tema do direito autoral. A retirada do selo (da licença) Creative Commons tem um valor simbólico de enfrentamento com as políticas do governo Lula. Na prática, isso não significa que o Ministério tenha alguma posição referente ao direito autoral, até porque essa questão será discutida em todos os âmbitos do governo. De qualquer modo, esse ato demonstra que ainda há posições conservadoras e reacionárias em relação ao direito autoral na internet.

IHU On-Line – O senhor acompanhou as declarações de Caetano Veloso a favor do direito autoral e a discussão que isso gerou no Twitter? Como interpreta a manifestação dele? O que suas declarações demonstram?

Marcelo D’Elia Branco – A Manifestaçao de Caetano Veloso, publicada em O Globo, criticando a internet, chamou minha atenção. Ele disse: “Do meu direito autoral não abro mão”. Há uma enorme confusão em relação a essa discussão do direito autoral na internet. Não existe nenhum movimento no Brasil que obrigue autores a liberarem suas obras por meio de licenças Creative Commons ou qualquer outro tipo de licença.

O que está em discussão, quando se retira a licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura, é saber qual será o destino dos conteúdos produzidos por funcionários públicos do ministério, pagos com dinheiro público. O selo Creative Commons no sítio do Ministério não significa que será preciso enquadrar os artistas, obrigando-os a aderirem ao Creative Commons. Pelo contrário, diz respeito ao conteúdo produzido por jornalistas e postados online.

Nova polêmica

A retirada do selo do sítio do Ministério abriu uma discussão ainda pior, que se manifesta em declarações de artistas como Caetano Veloso, os quais acham que é preciso enquadrar a internet. Isso remete para o Projeto de Lei do Azeredo, o AI-5 Digital. Quando Caetano deu aquela declaração, ele não estava polemizando sobre a retirada da licença Creative Commons do sítio do MinC. A reação de artistas tradicionais em defesa da ministra Ana de Hollanda revelou uma discussão ainda pior do que a retirada do selo da Creative Commons da internet. Revelou uma defesa, de certa forma, do Projeto de Lei do Azeredo, o AI-5 Digital, que quer punir e criminalizar com até três anos de cadeia quem estiver baixando músicas pela internet. De certa forma, quando Caetano diz “no meu direito autoral ninguém mexe”, subentende-se que é preciso enquadrar os internautas. Ele está querendo uma lei igual a do Azeredo, a qual foi altamente condenada pela sociedade brasileira.

Quem não quiser dividir suas obras e mudar a licença, não mude. A discussão principal deve ser em relação a políticas públicas, ou seja, o que o poder público vai fazer com seus conteúdos. Ele vai estimular políticas públicas na velha indústria decadente, continuar financiando o modelo de grandes gravadoras estrangeiras ou vai incentivar as licenças livres e o cenário de uma nova cadeia produtiva dos tempos da internet?

Se o Caetano não quiser que suas músicas sejam divulgadas, ele que guarde sua obra em uma caixinha. Ninguém vai obrigar os músicos a aderirem às licenças Creative Commons.

IHU On-Line – Qual é o maior problema da Lei do Direito Autoral no cenário da internet?

Marcelo D’Elia Branco – Só tem uma forma de impedir a circulação de música na internet: instaurando a quebra da privacidade indiscriminada. Para saber se o João está baixando uma música que está no computador da Maria, será preciso quebrar a privacidade do João e da Maria. Do contrário, não tem como saber. Então, o tema do direito autoral na internet precisa ser encarado como uma nova realidade, o compartilhamento precisa ser descriminalizado e não criminalizado.

A atual lei do Direito Autoral foi construída no século passado e não reflete a realidade do século XXI. Mantê-la é um grande retrocesso democrático.

IHU On-Line – Como o senhor vê o debate sobre a reforma do direito autoral no Brasil? O que dificulta mudanças?

Marcelo D’Elia Branco – Antigamente, o autor produzia um bem intelectual e, para que esse material chegasse ao público, era necessária uma indústria intermediária, com uma logística de distribuição cara, baseada na lógica industrial. Nesse modelo, o autor não se beneficiou porque teve de vender o seu direito autoral para a indústria intermediária. Então, dizer que no período anterior à internet o autor tinha direito sobre a sua obra é mentir. O autor precisava do intermediário para que sua obra chegasse ao consumidor. Tanto é verdade, que hoje muitos artistas não são donos de suas obras.

Com a chegada da internet, não existe mais necessidade da indústria intermediária. A cadeia produtiva da fábrica não existe mais e não tem sentido ela continuar intermediando a relação entre artistas e públicos e faturando com isso. No Brasil, 51% das vendas de CDs são destinadas à indústria intermediária. Então, não tem sentido o direito autoral construído para uma lógica industrial ser automaticamente reinterpretado da mesma forma em um cenário em que não existe mais a indústria intermediária.

É claro que a mudança da Lei do Direito Autoral se faz urgente para atualizar, sob o ponto de vista legal, as práticas comuns e que são produtivas para os artistas.

IHU On-Line – Nessa nova conjuntura, qual é o papel do Ecad? A ministra declarou também que o Ecad não precisa de supervisão estatal. Como o senhor vê essa declaração?

Marcelo D’Elia Branco – O Ecad é o dinossauro de tudo isso, tem um histórico de corrupção, não faz uma boa gestão dos direitos dos autores e não os repassa como deveria. A instituição é ameaçada por esse cenário já que nunca trabalhou em prol dos artistas e, sim, sempre foi favorável às gravadoras.

Na discussão do direito autoral, temos de diferenciar quais são os interesses dos artistas e qual o interesse das gravadoras e da indústria intermediária. O Ecad arvora como representante dos artistas, mas quando pergunto para eles como é a relação com a instituição, respondem que não tem interesse. Então, o Ecad pode ser útil para um pequeno grupo de artistas que se beneficiou com a era pop-star. Aquele artista que pede no camarim dez toalhas, 20 garrafas de champanhe francesa e vive como um ser superespecial está com os dias contados. A tendência agora é os artistas viverem dignamente com seus direitos autorais, fazendo shows e divulgando suas obras.

O Ecad tem de ser fiscalizado e deveria perder o monopólio. É absurdo que exista uma única entidade de arrecadação. O Ecad herda essa visão getulista. Os autores deveriam ter a opção de escolher qual a sua entidade arrecadadora e não nascer com o Ecad à tira colo.

IHU On-Line – Em que consistiria, hoje, uma reforma na Lei de Direito Autoral, considerando o avanço da internet, da cultura e da revolução tecnológica?

Marcelo D’Elia Branco – Em primeiro lugar, admitir os avanços da internet e descriminalizar as práticas de compartilhamento de arquivo P2P. Essa é uma troca de pessoa para pessoa sem fins lucrativos. É o mesmo que eu fazia quando comprava um vinil e, depois de escutá-lo, saia com ele pela rua, ia até a casa do meu amigo e escutava com ele. Então, quando se faz troca de música P2P pela internet, as pessoas não estão baixando as músicas de um servidor central ou aderindo à Pirataria. São músicas de pessoas que estão em casa e as disponibilizam por meio de dispositivos de compartilhamento de arquivo.

A cópia para fins de estudo deve ser contemplada pela nova lei do Direito Autoral. É preciso que as pessoas tenham o direito de tirar cópias de livros para estudarem. A cópia Xerox ainda é considerada crime no Brasil. Obras em extinção também devem ser disponibilizadas sem fins comerciais. Estas medidas fazem parte da ideia de flexibilização na lei do Direito Autoral, que é uma visão moderna e necessária do Direito e deve ser aplicada em países em desenvolvimento como o Brasil.

Pablo Ortellado diz que o Brasil é um dos poucos países do mundo que consome mais música nacional do que música estrangeira. No entanto, a balança de pagamentos de royalty de direito autoral do Brasil com o exterior é extremamente desproporcional. O Brasil paga dois bilhões de dólares anuais porque as empresas donas dos direitos dos autores brasileiros são estrangeiras. Então, o país não se beneficia com essa indústria cultural antiga.

A ministra Ana de Hollanda já teve o primeiro encontro com os membros da cultura digital. Parece que a reunião foi boa e a tendência é que a discussão sobre direito autoral continue sendo tratada da forma que vinha sendo discutida no governo Lula. Não tem como uma ministra quebrar uma política brasileira, internacional. O Brasil defendeu a ideia da flexibilização do direito autoral na Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, em Genebra, no ano de 2003, abriu uma agenda na Organização Mundial de Propriedade Intelectual chamada Agenda de Desenvolvimentos e quer rediscutir a questão do direito autoral e da propriedade intelectual.

O governo tem uma política bem consolidada neste sentido e Dilma, quando candidata à presidência, teve um encontro com Larry Lessy, criador das licenças Creative Commons no mundo, onde eles trocaram várias ideias. Ele disse para a presidente que o Brasil pode ter a lei do direito autoral mais avançada do mundo. Dilma repetiu a frase dele em uma mesa de debate na Campus Party. Nós esperamos que isso aconteça.

IHU On-Line – A partir do momento em que a base tecnológica do governo, dos veículos de comunicação e do público é a mesma, o que muda, política e socialmente?

Marcelo D’Elia Branco – Esse é o grande debate. Muda muito. Até onde essa mudança irá chegar, não sabemos, mas temos de discutir. É obvio que se a plataforma de mídia é a mesma, exige-se uma comunicação mais horizontal não só para que o público possa criticar as propostas do governo, mas para que, principalmente, possa construir junto as novas propostas do governo.

IHU On-Line – Os brasileiros aderiram ao software livre? Como vê a adesão no país?

Marcelo D’Elia Branco – O Brasil tem sido um dos países do mundo onde o software Livre é mais discutido. No mundo dos servidores e das empresas, ele tem avançado bastante. A batalha é chegar no usuário final e em torno disso há uma nova discussão: o acesso a computadores com software livre. De qualquer modo, ele ganhou bastante espaço no meio técnico: tudo que faz a internet funcionar é software livre: WordPress é software livre, as plataformas dos blogs funcionam a partir dele. Então, o desafio é que o usuário abra mão do MS Office e do Windows. A internet pouco a pouco vai superando essa ideia.

Futuro da Propaganda

achei interessante e compartilho

    .

Idéias de um mundo globalizado

aqui uma foto que é auto explicativa

e dois videos sobre o futuro dos negócios
o primeiro dentro da maravilhosa plataforma TED.COM para quem não conheçe um local com pensadores, artistas, dando seu ponto de vista este aqui é de Lisa Gansky

    este outro é de Gerd Leonhard

    Henry Ford tinha perguntado às pessoas o que elas queriam, elas teriam dito, “cavalos mais rápidos”, porque não sabiam que havia algo completamente diferente e melhor. Foi um comentário provocante, preparando o palco para suas visões sobre o futuro dos negócios, tecnologia e como os consultores de negócios seriam impactados.

Lewis Hyde: entre as ideias e o mercado

Os dilemas da propriedade intelectual e a relação entre artista e mercado são objeto de estudo do ensaísta americano Lewis Hyde, que há três décadas escreve sobre o que chama de “a vida pública da imaginação”. Pesquisador do Centro de Internet e Sociedade da Universidade de Harvard e professor de escrita do Kenyon College, Hyde gosta de se definir como “poeta, tradutor e acadêmico freelancer”. A partir de sua dupla experiência como artista e pesquisador, publicou em 1983 o livro “A dádiva” (lançado aqui recentemente pela Civilização Brasileira, com tradução de Maria Alice Máximo), no qual reflete sobre a a dificuldade de tratar obras de arte como mercadoria. O livro se tornou um sucesso especialmente entre artistas, como se pode notar pelos elogios efusivos de escritores como David Foster Wallace, Margaret Atwood, Zadie Smith e Geoff Dyer exibidos no site do autor.

No livro, Hyde usa o conceito antropológico de “dádiva” (no sentido de “dom” ou “doação”) para definir a relação entre artista e público: segundo o autor, assim como na troca de dádivas, essa relação é marcada por um vínculo emocional que não existe na simples troca de mercadorias. Assim, “as obras de arte existem simultaneamente em duas ‘economias’: a economia de mercado e a economia de doação”, o que leva o artista a “sofrer uma constante tensão entre a esfera da doação, à qual sua obra pertence, e a sociedade de mercado, que é seu contexto”, escreve. Essa tensão pode ser ilustrada, por exemplo, pela figura do artista que quer fazer sua obra circular pela internet, mas encontra empecilhos legais ou financeiros para isso.

Autor de outras obras sobre o tema, como o recente “Common as air” (“Comum como o ar”, inédito no Brasil), que discute a história da propriedade intelectual do século XVIII até os tempos de Creative Commons, Hyde conversou por e-mail com o GLOBO sobre os impasses contemporâneos na legislação sobre propriedade intelectual. Hyde mostrou acompanhar os debates sobre o tema no Brasil e criticou a postura da ministra Ana de Hollanda na polêmica sobre direitos autorais.

Você resume seu campo de estudo como “a vida pública da imaginação”. Como defini-lo e quais são os principais desafios nesse campo?

LEWIS HYDE: Tanto a poesia quanto a política sempre foram importantes para mim desde a juventude, e a expressão “vida pública da imaginação” tenta capturar isso. Conversando com um amigo, Goethe uma vez respondeu à pergunta “Quem sou eu?” da seguinte forma: “Guardei e usei tudo que vi, ouvi e observei. Minhas obras foram nutridas por incontáveis indivíduos, inocentes e sábios, brilhantes e estúpidos. Infância, maturidade e velhice me trouxeram seus pensamentos, suas perspectivas de vida. Frequentemente colhi o que outros plantaram. Meu trabalho é obra de um ser coletivo que carrega o nome de Goethe”. Concordo com essa imagem. Grandes criadores são “seres coletivos”, não indivíduos isolados. Quanto ao “principal desafio”, é o impulso político de privatizar tudo, especialmente, agora, as artes e ideias. Não me oponho à propriedade privada nem à “propriedade intelectual”, mas é preciso haver um equilíbrio entre o privado e o comum. O equilíbrio tradicional está sob ataque.

Em “A dádiva”, você especula sobre relações entre propriedade intelectual e culturas baseadas na dádiva. Como a noção de “dádiva” pode ajudar a pensar a propriedade intelectual?

HYDE: Por trás de sua pergunta há outra: o que é “propriedade”? Em “Comum como o ar”, respondo com uma antiga definição: “propriedade é um direito de ação”. Se sou o proprietário de uma casa, há muitas ações que posso tomar em relação a ela (pintá-la, vendê-la, emprestá-la a um amigo…) e também há ações que não posso tomar — como, por exemplo, usá-la para estocar armas nucleares. Se tenho o direito de dar algo, então isso também é um tipo de propriedade, baseada na dádiva. Normalmente falamos de “propriedade intelectual” só em termos de um direito de excluir, mas poderíamos facilmente pensá-la em termos de um direito de doar. Muitos pesquisadores entendem que não há como ganhar muito dinheiro com suas ideias; eles preferem vê-las em circulação. Artigos publicados em periódicos acadêmicos são por isso chamados de “contribuições”. São propriedades baseadas na dádiva. No livro, tento esclarecer até que ponto muito do que pensamos hoje como “propriedade intelectual” é também propriedade comum, baseada na dádiva.

O livro trabalha com a noção de “bens culturais comuns” (cultural commons). Como você a define?

HYDE: Os bens culturais comuns são aquele grande estoque de arte e ideias que herdamos e que continuamos a criar. Os escritos de Shakespeare, Mark Twain, Tolstói, José de Alencar; o conhecimento sobre como fazer aspirinas e motores a vapor ou transístores; tudo isso e mais.

Em “Comum como o ar”, você defende a importância de conhecer o debate por trás da noção contemporânea de “propriedade intelectual”. O que é preciso saber sobre a história desse debate?

HYDE: Esse argumento é desenvolvido em mais de 100 páginas, então é difícil dar uma resposta breve. Mas aqui vai um resumo. No século XVIII, se o Estado lhe dava direitos sobre uma obra, ele não estava reconhecendo um direito natural à propriedade, estava conferindo um monopólio. Você tinha o privilégio, por um tempo limitado, de controlar a expressão que havia criado. O limite de tempo era importante porque, na experiência europeia, o controle perpétuo da expressão havia sido frequentemente uma ferramenta de despotismo. Postos em termos positivos, os limites ao monopólio ajudaram a criar uma esfera pública de debate aberto e deliberação, que, por sua vez, ajudou a criar nações autogovernantes.

E como as leis atuais de direito autoral afetam a circulação daquelas obras e ideias que você considera bens culturais comuns?

HYDE: O direito autoral se expandiu imensamente desde sua invenção no século XVIII. Em sua origem, esse direito garantia até 28 anos de controle sobre cópias integrais de uma obra. Além do mais, para garantir esse controle o autor tinha que registrar a obra, pagar uma pequena taxa, e colocar uma notificação de direito autoral no livro impresso. Tudo isso mudou. Na maioria dos países, a exigência de registro caiu e o termo de propriedade pode durar até um século. Nesse e em muitos outros sentidos, o direito autoral se expandiu incessantemente, e cada expansão significa um cerceamento do que antes era comum.

Na sua opinião, o que organizações como o Creative Commons podem fazer para modernizar as leis atuais de propriedade intelectual?

HYDE: Muitos projetos procuram ampliar o conceito de bens culturais comuns trabalhando dentro da lei. O Creative Commons é o mais conhecido, oferecendo já há uma década um pacote de licenças que permitem que os proprietários publiquem suas criações sob termos mais liberais do que os oferecidos pela lei de direito autoral padrão. Um compositor amador pode, por exemplo, lançar suas canções sob uma licença “Atribuição — Uso Não Comercial” que diz, essencialmente: “Qualquer um é livre para copiar essa música, remixá-la ou adaptá-la, desde que me cite como autor e não a use para fazer dinheiro”. Ou um poeta que se preocupa com a integridade de seus textos pode usar a licença “Atribuição — Uso Não Comercial — Não a Obras Derivadas”, que diz a mesma coisa, mas acrescenta que usuários “não podem alterar, transformar nem acrescentar nada à obra”. As licenças Creative Commons permitem que milhões de obras circulem sem os problemas de permissão e taxas que automaticamente afetam todo material protegido por direitos autorais. Devo dizer que não entendo a ordem recente da nova ministra da Cultura brasileira, Ana de Hollanda, para a retirada da licença Creative Commons do site do ministério. Para dizer o mínimo, a mudança oferece a oportunidade de discutir os propósitos do direito autoral.

Além do Creative Commons, que outras iniciativas você destacaria?

HYDE: Aplaudo o movimento pelo “Livre Acesso” (“Open Access”) encontrado hoje em muitas instituições de ensino superior. Nos Estados Unidos, muitas universidade, incluindo Harvard, pedem que os professores coloquem suas pesquisas na internet para download grátis. A adesão é voluntária, mas o Acesso Livre está se tornando um procedimento padrão nas publicações acadêmicas. Outro movimento importante exige o “uso justo” (“fair use”) dos direitos. As leis americanas estipulam que “o uso justo de obras protegidas por direito autoral… para fins como crítica, comentário, jornalismo, ensino (incluindo múltiplas cópias para uso em sala de aula) e pesquisa não infringe o direito autoral”. Muitas comunidades criativas têm trabalhado nos últimos anos para esclarecer esses direitos. Em alguns sentidos, o Brasil está à frente dos Estados Unidos nessa questão do “uso justo”. Nos Estados Unidos, é ilegal contornar as restrições de DRM (sigla para “Digital Rights Management”, ou “Gestão de direitos digitais”), mesmo que para uso considerado “justo” em circunstâncias normais. Até onde sei, no Brasil é possível quebrar o DRM sem quebrar a lei, desde que não se cometa violação de direito autoral. Além disso, um detentor de direitos que usa DRM que restringe ações permitidas pela lei brasileira está sujeito a multa.

Em “A dádiva”, você fala sobre a dificuldade de conciliar as esferas da prática artística e do mercado, mas diz que, ainda assim, é preciso buscar essa conciliação, sem prejudicar a porção de “dádiva” da arte. Que conciliação é possível?

HYDE: Há três ou quatro respostas possíveis. Assumindo que existe uma verdadeira incongruência entre ganhar a vida e fazer arte, muitos artistas escolhem uma vida de pobreza voluntária. Vivem com pouco e constroem sua obra. Em segundo lugar, há sociedades que reconhecem esse problema e apoiam artistas de maneiras não-mercadológicas. O patronato era uma forma arcaica desse tipo de apoio, e hoje temos fundações privadas e bolsas públicas. Em terceiro lugar, muitos artistas têm um segundo emprego, removendo da arte o fardo de ter que pagar suas contas. Até ensinar a própria arte é uma espécie de segundo emprego (eu mesmo ensino escrita, o que não é a mesma coisa que escrever). Por fim, existem aqueles poucos felizardos que vivem diretamente de seu trabalho, romancistas, pintores e dramaturgos de sucesso. Bravo para eles.

fonte

proza online

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/default.asp?a=96&periodo=201103