HAMILTON DE HOLANDA

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Hermeto Pascoal: o som do infinito

A primeira vez que assisti a Hermeto Pascoal foi uma grande revela√ß√£o : dava pra ver as notas que saiam da cabe√ßa e o do cora√ß√£o indo direto pro nosso ouvido. A impress√£o que tive √© que o tempo entre as ideias que ele parecia ter e o momento em que os dedos tocavam as teclas do piano n√£o existia, isso para um jovem m√ļsico de 16 anos foi impactante. At√© ent√£o, conhecia o Hermeto de seu famoso Chorinho pra ele, que adorava tocar. N√£o sabia da sua capacidade de improvisa√ß√£o e cria√ß√£o espont√Ęnea. Quem me falava muito dele na inf√Ęncia era Pernambuco do Pandeiro, que foi o l√≠der do primeiro Conjunto profissional que Hermeto tocou, o Regional de Pernambuco do Pandeiro. Ele foi meu padrinho musical e era muito amigo de Hermeto.

Passei ent√£o a ouvir mais a sua obra: Slave Mass, S√≥ n√£o toca quem n√£o quer,¬†Festa dos Deuses, C√©rebro Magn√©tico, Zabumb√™ Bu√°, entre outros. Mergulhei nas¬†suas harmonias e melodias. Estudei ritmos e polirritmias. √Č uma obra atemporal¬†e muito profunda. Profunda porque tem o que h√° de mais brasileiro em sua¬†ess√™ncia. Ele vai fundo no que diz respeito a sua raiz nordestina. Ao mesmo¬†tempo tem uma imagem de m√ļsica feita pelo universo, porque n√£o se encaixa em¬†apenas um g√™nero espec√≠fico, em um padr√£o √ļnico. Al√©m disso, ela pode ter a¬†melodia mais simples e linda e tamb√©m os ritmos e acordes mais elaborados,¬†com todas as matizes de sensa√ß√Ķes. Hermeto, acima de tudo, sente e faz. Ele √© puro cora√ß√£o, sua m√ļsica me sugere todo tipo de sentimento e sensa√ß√£o.

Eu tocava com meus amigos em Bras√≠lia as m√ļsicas de Hermeto: Rog√©rio¬†Caetano, Daniel Santiago, Gabriel Grossi, Amoy Ribas, Andr√© Vasconcellos, entre¬†outros. As m√ļsicas nos desafiavam o tempo todo, ao final de cada tema vinha¬†uma sensa√ß√£o de vit√≥ria, como se tiv√©ssemos ultrapassado uma grande barreira¬†t√©cnica e emocional. Nessa √©poca, conheci o Marcio Bahia. Grande baterista,¬†figura am√°vel que tocava com Hermeto. Ele fez a conex√£o e marcou uma visita¬†em Bangu, no Rio de Janeiro, onde o Hermeto morava. Fui com o Andr√©¬†Vasconcellos e dois integrantes do grupo de Choro Rabo de Lagartixa, Dani¬†Spielman e Marcello Gon√ßalves. Assim que chegamos, o mago Hermeto nos levou¬†para o est√ļdio e ali mesmo, sem cerim√īnia, come√ßou a fazer uma m√ļsica para¬†n√≥s.

Era impressionante ver e participar daquele momento de cria√ß√£o. Me¬†lembro que ele usou o cavaquinho e o piano para compor. No come√ßo, achei que¬†ele inventava as frases e ia colando, como uma colcha de retalhos. Quando¬†chegou ao fim, tive outra impress√£o : cada frase que ele criava tinha vida pr√≥pria,¬†mas quando ele juntou tudo, a m√ļsica apareceu e a ideia musical fez todo¬†sentido. Quando fui embora, tive a certeza que aquilo que vivi tinha sido muito¬†especial e que iria lembrar a vida toda. A m√ļsica ficou com o nome ‚ÄėLagartixa de¬†ouro‚Äô.

Tive outras experi√™ncias musicais com Hermeto. Uma certa vez em Londres,¬†participei da comemora√ß√£o de seus 75 anos de idade no Barbican. Foi outra forte¬†emo√ß√£o: de um lado do palco o Grupo de Hermeto quebrando tudo, desfilando¬†temas e mais temas. Do outro lado, uma big band comandada pelo pianista¬†Jovino Santos Neto tocando composi√ß√Ķes do ‚ÄėCampe√£o‚Äô em um n√≠vel maravilhoso.¬†Foi uma pancada. O Grupo tocava uma, a Big Band, outra. Era l√° e c√°. Cada tema¬†diferente do outro, muito bom. Neste dia, toquei algumas m√ļsicas com eles, foi¬†fant√°stico. Deu pra ver de perto, mais uma vez, a capacidade de comunica√ß√£o¬†com o p√ļblico que ele tem, mesmo sem falar ingl√™s. As brincadeiras musicais s√£o¬†sempre surpreendentes. A m√ļsica de Hermeto √© bem-humorada. Ele tem uma¬†empatia muito grande com as pessoas, sabe fazer o p√ļblico se sentir bem e se¬†sentir parte do show.

Nesse dia acho que ele tocou teclado e alguns instrumentos¬†n√£o-convencionais : ta√ßa de vinho, patinho de crian√ßa e a pr√≥pria barba. J√° vi ele¬†tocar, al√©m do piano, saxofones, flautas, viol√£o, viola, trompete, bandolim,¬†pandeiro e outros. Todos com uma musicalidade fluente e comovente.¬†O que mais me encanta na sua personalidade como compositor √© a capacidade de¬†fazer uma m√ļsica super simples, daquelas melodias que fazem at√© uma pedra¬†chorar e tamb√©m aquelas encrencas, com muita elabora√ß√£o e complexidade.

A √ļltima vez que fez as contas de quantas composi√ß√Ķes ele tem, recentemente,¬†chegou ao n√ļmero aproximado de 8000 m√ļsicas. √Č capaz de ser mais do que isso.¬†Se em um ano ele comp√īs 366 temas para todos os aniversariantes ‚Äď o famoso¬†Calend√°rio do Som, de 1996 ‚Äď e h√° muito tempo segue nessa pegada, ele deve¬†estar perto do infinito. √Č isso mesmo, se o amor pode ser infinito, a m√ļsica de¬†Hermeto Pascoal √© o som do infinito.

Hamilton de Holanda para o site do Museu da Imagem e do Som.