HAMILTON DE HOLANDA

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Hamilton de Holanda celebra a música mundial em novo formato

Hamilton de Holanda viaja pelo tempo e pelos continentes, celebrando em formato acústico a música mundial e alguns de seus autores. No palco, seu bandolim de 10 cordas é elegantemente acompanhando pelo contrabaixo acústico de Guto Wirtti e pela sanfona de Marcelo Caldi.

O formação em trio não é novidade para os fãs de Hamilton de Holanda. Em 2013, o bandolinista lançou o premiado disco Trio com percussão e contrabaixo e, recentemente, gravou neste mesmo formato o álbum Samba de Chico (Biscoito Fino), um tributo ao centenário do samba e ao compositor Chico Buarque. Para Hamilton, que tem diversos trabalhos, destacando-se o duo com o pianista Stefano Bollani, o Quinteto Brasilianos e o irreverente Baile do Almeidinha, o Trio Mundo catalisa o improviso, a alegria e a sofisticação acústica. Além disso, essa formação lhe permite muita liberdade para improvisar e expor suas ideias harmônicas, melódicas e rítmicas de forma confortável.

D0 acaso de uma incompatibilidade na agenda dos músicos do Trio para uma residência em um dos principais Jazz Clubs da Suíça, surgiu uma oportunidade. Essa necessidade levou Hamilton de Holanda a recorrer a uma nova formação, unindo a harmonia da sanfona de Marcelo Caldi ao dueto de bandolim de 10 cordas e contrabaixo acústico, instrumentos, na sua opinião, universais que representam várias culturas de países diferentes. Assim nasceu o Trio Mundo, um novo trabalho focado na beleza e na versatilidade da música universal. Juntos Hamilton de Holanda, Guto Wirtti e Marcelo Caldi fizeram uma maratona de dez shows no Bern Jazz Festival, na Suíça, consolidando de vez o novo formato.

“Esse formato me dá a possibilidade de dar uma pequena volta ao mundo sem sair do bandolim. Marcelinho e Guto são músicos que também gostam de rodar por aí através das melodias, então é muito legal pra nós e para o público, que também viaja através de músicas com diferentes sotaques e sabores!”, explica Hamilton de Holanda.

A busca de Hamilton não é simplesmente pelo novo, mas por uma música focada na beleza e na espontaneidade. Diante dele, existe um novo mundo cheio de possibilidades. Seu norte é “Moderno é Tradição”, o importante não é o passado, nem o futuro, mas a intercessão entre esses dois tempos, exatamente onde se confundem, o momento presente, o “é” - aqui e agora. E é exatamente nessa premissa que vemos nascer o Trio Mundo.

O instrumentista, cantor, compositor, educador e arranjador Marcelo Caldi se tornou um dos músicos responsáveis pela revitalização da sanfona no cenário da música contemporânea. Guto Wirtti,  instrumentista, compositor e produtor, mescla suas influencias regionais do sul do país com os sons do mundo. Ambos conduzem a música de forma criativa e espontânea. Uma grande semelhança entre eles é que, assim como Hamilton de Holanda, os dois cresceram em famílias musicais.

No repertório do novo trabalho, Hamilton de Holanda mescla releituras de clássicos da música mundial e temas autorais. A cada show um repertório novo pode acontecer. Entre os temas autorias “Nafrenavo” – uma homenagem póstuma de Hamilton ao percussionista Nana Vasconcelos, “1 Byte 10 cordas”, e alguns de seus Caprichos. Entre os clássicos, Segura Ele (Pixinguinha), Folk Song (Chick Corea), “Blackbird” (Beatles), “Amarcord” (Nino Rota), ”Laurita” ( Richard Galliano), “El Saltarin” (Luis Laguna)  “Antonia” (Pat Metheny) , “Zyriab”(Paco de Lucia) , “Luiza”(Tom Jobim), Carl Linnaeuss Polones (canção tradicional da Suécia), “Canto de Ossanha” (Baden Powell), entre outros.

Hermeto Pascoal: o som do infinito

A primeira vez que assisti a Hermeto Pascoal foi uma grande revelação : dava pra ver as notas que saiam da cabeça e o do coração indo direto pro nosso ouvido. A impressão que tive é que o tempo entre as ideias que ele parecia ter e o momento em que os dedos tocavam as teclas do piano não existia, isso para um jovem músico de 16 anos foi impactante. Até então, conhecia o Hermeto de seu famoso Chorinho pra ele, que adorava tocar. Não sabia da sua capacidade de improvisação e criação espontânea. Quem me falava muito dele na infância era Pernambuco do Pandeiro, que foi o líder do primeiro Conjunto profissional que Hermeto tocou, o Regional de Pernambuco do Pandeiro. Ele foi meu padrinho musical e era muito amigo de Hermeto.

Passei então a ouvir mais a sua obra: Slave Mass, Só não toca quem não quer, Festa dos Deuses, Cérebro Magnético, Zabumbê Buá, entre outros. Mergulhei nas suas harmonias e melodias. Estudei ritmos e polirritmias. É uma obra atemporal e muito profunda. Profunda porque tem o que há de mais brasileiro em sua essência. Ele vai fundo no que diz respeito a sua raiz nordestina. Ao mesmo tempo tem uma imagem de música feita pelo universo, porque não se encaixa em apenas um gênero específico, em um padrão único. Além disso, ela pode ter a melodia mais simples e linda e também os ritmos e acordes mais elaborados, com todas as matizes de sensações. Hermeto, acima de tudo, sente e faz. Ele é puro coração, sua música me sugere todo tipo de sentimento e sensação.

Eu tocava com meus amigos em Brasília as músicas de Hermeto: Rogério Caetano, Daniel Santiago, Gabriel Grossi, Amoy Ribas, André Vasconcellos, entre outros. As músicas nos desafiavam o tempo todo, ao final de cada tema vinha uma sensação de vitória, como se tivéssemos ultrapassado uma grande barreira técnica e emocional. Nessa época, conheci o Marcio Bahia. Grande baterista, figura amável que tocava com Hermeto. Ele fez a conexão e marcou uma visita em Bangu, no Rio de Janeiro, onde o Hermeto morava. Fui com o André Vasconcellos e dois integrantes do grupo de Choro Rabo de Lagartixa, Dani Spielman e Marcello Gonçalves. Assim que chegamos, o mago Hermeto nos levou para o estúdio e ali mesmo, sem cerimônia, começou a fazer uma música para nós.

Era impressionante ver e participar daquele momento de criação. Me lembro que ele usou o cavaquinho e o piano para compor. No começo, achei que ele inventava as frases e ia colando, como uma colcha de retalhos. Quando chegou ao fim, tive outra impressão : cada frase que ele criava tinha vida própria, mas quando ele juntou tudo, a música apareceu e a ideia musical fez todo sentido. Quando fui embora, tive a certeza que aquilo que vivi tinha sido muito especial e que iria lembrar a vida toda. A música ficou com o nome ‘Lagartixa de ouro’.

Tive outras experiências musicais com Hermeto. Uma certa vez em Londres, participei da comemoração de seus 75 anos de idade no Barbican. Foi outra forte emoção: de um lado do palco o Grupo de Hermeto quebrando tudo, desfilando temas e mais temas. Do outro lado, uma big band comandada pelo pianista Jovino Santos Neto tocando composições do ‘Campeão’ em um nível maravilhoso. Foi uma pancada. O Grupo tocava uma, a Big Band, outra. Era lá e cá. Cada tema diferente do outro, muito bom. Neste dia, toquei algumas músicas com eles, foi fantástico. Deu pra ver de perto, mais uma vez, a capacidade de comunicação com o público que ele tem, mesmo sem falar inglês. As brincadeiras musicais são sempre surpreendentes. A música de Hermeto é bem-humorada. Ele tem uma empatia muito grande com as pessoas, sabe fazer o público se sentir bem e se sentir parte do show.

Nesse dia acho que ele tocou teclado e alguns instrumentos não-convencionais : taça de vinho, patinho de criança e a própria barba. Já vi ele tocar, além do piano, saxofones, flautas, violão, viola, trompete, bandolim, pandeiro e outros. Todos com uma musicalidade fluente e comovente. O que mais me encanta na sua personalidade como compositor é a capacidade de fazer uma música super simples, daquelas melodias que fazem até uma pedra chorar e também aquelas encrencas, com muita elaboração e complexidade.

A última vez que fez as contas de quantas composições ele tem, recentemente, chegou ao número aproximado de 8000 músicas. É capaz de ser mais do que isso. Se em um ano ele compôs 366 temas para todos os aniversariantes – o famoso Calendário do Som, de 1996 – e há muito tempo segue nessa pegada, ele deve estar perto do infinito. É isso mesmo, se o amor pode ser infinito, a música de Hermeto Pascoal é o som do infinito.

Hamilton de Holanda para o site do Museu da Imagem e do Som.